sábado, 11 de setembro de 2010

A música do Dia - Jeff Bridges - The Weary Kind


Romoaldo de Souza


Pegue um cantor de música country no apogeu da decadência, adicione mais uma dose álcool, misture alta velocidade, a dor de cotovelo e uma complicada paixão pela jornalista Jean Craddock (Maggie Gyllenhaal) recém saída da Universidade e de um relacionamento além de um filho para criar.


Agora, imagine um homem de meia idade, solitário, padecendo da praga judaico-cristã que é essa desenfreada comiseração. Entre umas e outras, Jeff Bridges sabe, como ninguém, prender o espectador a cada trama que desempenha. Atar talvez fosse a palavra correta para expressar o resultado da performance de Bridges, vivendo Bad Blake. O ator nos ata aos dramas, às espeluncas em que Bad Black canta, muitas vezes por um trago.


Estou falando de Coração Louco (Crazy Heart) filme que deu a Jeff Bridges o Oscar de Melhor Ator. "The Weary Kind", composição de Ryan Bingham, cuja letra diz "Seu corpo dói...Tocando guitarra e eliminando o ódio no suor. Os dias e as noites parecem todos iguais".



O diretor Scott Cooper soube, com maestria, mesclar personagens fictícios com elementos da vida real de três marcantes cantores de country, Kris Kristofferson, Merle Haggard e Waylon Jennings. O resultado é Bad Blake. Perfeito para este domingo. Divirtam-se!


The Weary Kind

Ryan Bingham e T Bone Burnett


Your heart's on the loose

You rolled them seven's with nothing lose

And this ain't no place for the weary kind

You called all your shots

Shooting 8 ball at the corner truck stop

Somehow this don't feel like home anymore

And this ain't no place for the weary kind

And this ain't no place to lose your mind

And this ain't no place to fall behind

Pick up your crazy heart and give it one more try

Your body aches'

Playing your guitar and sweating out the hate

The days and the nights all feel the same

Whiskey has been a thorn in your side

and it doesn't forget

the highway that calls for your heart inside

And this ain't no place for the weary kind

And this ain't no place to lose your mind

And this ain't no place to fall behind

Pick up your crazy heart and give it one more try

Your lovers won't kiss'

It's too damn far from your fingertips

You are the man that ruined her world

Your heart's on the loose

You rolled them seven's with nothing lose


And this ain't no place for the weary kind




sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Arroz de Gariroba e a Maior História de Resistência


Ricardo Icassatti Hermano

Dei muito trabalho ao meu pai. De um garoto tímido na infância passei a adolescente "rebelde" e doido para cuidar da minha vida. Desde os 14 anos de idade, já queria trabalhar, ganhar a minha grana e sair de casa. Meu pai, em sua infinita paciência, me convencia a continuar estudando.

Eu queria conhecer o mundo, queria navegar por todos os oceanos como um pirata, sem compromisso e sem patrão. Fazer o que me desse na cabeça. O que eventualmente acabei fazendo.

Com toda a minha falta de experiência, quebrei a cara muitas vezes, dei algum prejuízo material, fui preso algumas vezes e expulso de duas escolas. Meu pai apenas ria muito de tudo. Até mesmo quando tinha que me levar ao Pronto-Socorro.

Ele sabia que aquilo era parte da minha caminhada na vida. Embora não soubesse demonstrar carinho ou sequer falar sobre o amor que sentia pelos filhos, meu pai jamais me deixou na mão. Sempre que precisei dele, até nos momentos em que dei todos os motivos para que não o fizesse, ele me ajudou. Era o seu jeito de dizer que me amava.

Meu pai se chamava Manoel Hermano. Simples assim. Um nome e um sobrenome, nada mais. Mas, na família era conhecido pelo apelido de Manduquinha, diminutivo de Manduca, apelido do meu avô, pai do meu pai. Meu avô era um homem do tipo que não mais existe. Era um negro duro como pau-ferro, severo - só o vi sorrir uma vez - e elegante como um artista de cinema.

Tenho poucas lembranças dele. Eu era muito pequeno, mas ficaram umas imagens. Certa vez, estávamos meu irmão e eu na porta da casa dos meus avós em Goiânia. Meu tio Tinim (diminutivo de Modestino) dava voltas na rua conosco em sua Lambreta. Talvez venha daí a nossa paixão por motocicletas.

Era um final de tarde quente, num domingo. Meu avô estava saindo de casa para ir a uma reunião da Maçonaria. Vestia terno branco de linho, chapéu Panamá, um guarda-chuva pendurado no braço esquerdo. Ele parou no portão e ajeitou o paletó. Foi quando vislumbrei o revólver calibre .32 na cintura. Para mim, era como ver o Super Homem.

Mesmo assim meu pai me contou que quando me conheceu, ainda bebê, meu avô fez algo que espantou a família: passou minhas fraldas. Décadas depois, era eu passando as fraldas dos meus filhos nas madrugadas após a faculdade.

Meu pai era parecido comigo em algumas coisas. Ele mesmo abandonou Goiânia ainda bem jovem e se mandou para o Rio de Janeiro para se tornar um artista. Pintava quadros e queria cursar a Escola de Belas Artes. Logo tomou um choque de realidade. Aquilo não era para um sujeito pobre como ele, que precisava trabalhar para sobreviver.

Estudou desenho técnico, veio para Brasília e se formou arquiteto na primeira turma da UnB. Teve a sorte de ter Darcy Ribeiro como reitor, aulas ao ar livre e como paraninfo da turma o arquiteto Oscar Niemeyer. Mas, também amargou o golpe militar de 1964 e seus desdobramentos. Generoso, abrigou um professor russo de matemática lá em casa por uns dias. O professor em fuga estava sendo procurado pela polícia.

Nossa casa, na verdade um apartamento de três quartos, abrigou boa parte dos primos que vieram de Goiânia para estudar na UnB. Tive uma infância muito divertida, porque convivia com primos mais velhos. Acho que era a única criança que sabia o que estava acontecendo na política e na música durante os anos 1960. Aprendi logo a namorar, fumar e beber. Larguei o cigarro quando meu primeiro filho nasceu. Bebo pouquíssimo, mas continuo namorando : )

Esse era o meu pai, o Manduquinha. As saudades são gigantescas. Hoje, compreendo coisas que ele me disse, coisas que ele fez e não fez. Sei porque. como, onde e quando. Estou passando por momentos semelhantes com meu filhos. Mas, como tudo evolui, faço questão de demonstrar meu amor por eles. Tenho certeza que isso não será nem uma preocupação deles com os meus netos. Será apenas natural.

Eu gostaria de ter meu pai ainda. Gostaria de conversar calmamente com ele, relembrarmos as minhas cagadas e rirmos juntos. Gostaria de pedir conselhos e saber sua opinião sobre vários temas. Gostaria de vê-lo retomando a pintura e convivendo com os netos. Infelizmente, não posso.

O que posso fazer é praticar as lições de vida que me deixou. Especialmente aquelas relacionadas à resistência. Para me criar, meu pai teve que ser muito resistente. E essa é a maior história de resistência que conheço. A história do meu pai.

A receita de hoje é de um prato típico da cozinha goiana que ele adorava. Eu não gostava muito de um dos ingredientes, mas com o tempo acabei gostando. Esse ingrediente é um palmito retirado da palmeira chamada Gariroba, muito apreciado no Centro Oeste e Sudeste. Tem sabor bem amargo e está presente em vários pratos diferentes da culinária goiana.

Na receita de hoje, a Gariroba acompanha o ingrediente que nos acompanhará até dia da eleição e simboliza a Trincheira da Resistência contra o autoritarismo, a censura e a corrupção. Vamos a ela então.

Arroz de Gariroba

Ingredientes
- 4 colheres sopa de manteiga

- 1 colher chá de vinagre

- 4 xícaras de água quente

- 2 xícaras de arroz
- 
400 gramas de gariroba cortado em pedaços pequenos

- Salsinha e cebolinha picada para polvilhar
- 
1 cebola pequena bem picadinha

- 1 pimenta de cheiro picadinha

- Pimenta do reino a gosto

- 2 dentes de alho picados

- 2 cebolas médias picadas

- Sal a gosto

Preparo

Numa panela, derreter a manteiga, acrescentar o alho e a cebola e deixar refogar em fogo baixo, mexendo de vez em quando. Adicionar a Gariroba e refogar por uns 5 minutos, mexendo sempre com uma colher de pau.

Acrescentar o arroz, fritar um pouco, e juntar água. Tampar a panela e deixar cozinhar. Antes de apagar o fogo, colocar pimenta de cheiro, e, na hora de servir, acrescentar e misturar cebolinha, salsinha, pimenta do reino, a cebola e o vinagre.

Se a Gariroba estiver em conserva, usar diretamente. Se for 'in natura', aferventar por uns 50 minutos trocando a água para não ficar tão amarga. Se desejar, adicionar um pouco de suco de limão.

Esse arroz acompanha bem as carnes.

Essa é a famosa Gariroba

Complicou ...


Ricardo Icassatti Hermano

Hoje eu pretendia contar a maior história de resistência que conheço. É a maior porque durou a maior parte da minha vida. Não, não é sobre mim e algum episódio de resistência pessoal. É sobre o homem que me criou, que me amparou, que me deu tudo o que precisei para me desenvolver, o meu pai.

Mas, aí a coisa complicou. Ao procurar fotos antigas no meio da montanha de fotos que tenho, emoções afloraram com uma velocidade espantosa. Todas boas, mas extremamente fortes. Eu não esperava por isso.

Acho que isso aconteceu devido a uma conversa que tive dias atrás com uma colega de trabalho, a jornalista Raíssa Abreu. Estávamos conversando sobre os anos 1960 e o golpe militar. Ela lembrou de eventos em que seu pai atuou na política, suas alegrias e tristezas, momentos de angústia da família, essas coisas que eu também vivi junto à minha própria família.

Pedi a ela que escrevesse sobre essa época e a atuação política do seu pai para postar aqui no blog. Raíssa me respondeu, meio consternada, que falar sobre o pai era "muito complicado". Desde então, venho pensando em escrever sobre o meu pai e descobri também que realmente é muito complicado.

Gostaria de falar do amor e da saudade que sinto do meu pai, mas de uma forma leve, suave, engraçada. Queria brincar um pouco. Mas, vou ter que estudar bem como fazer isso sem me deixar tomar pelas emoções que afloraram. Vou deixar que elas se acalmem um pouco, processá-las um pouco, daí escrevo.

Por hoje, a Trincheira da Resistência se despede e fica por aqui.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Arroz de Bacalhau e O Pasquim, a resistência com humor


Ricardo Icassatti Hermano

Em 2004, o pensador e filósofo italiano Giorgio Agamben disse em uma entrevista que rejeitou o convite de lecionar na Universidade de Nova Iorque porque se recusava a ser submetido ao cadastramento imposto pelo governo dos Estados Unidos a todos os estrangeiros.

Giorgio Agamben

Ele explicou que tomou a decisão motivado pela "preocupação com a escalada das práticas de controle; com o fato de medidas de excepcionais estarem se tornando normais". Agamben ainda disse que "provavelmente está se aproximando o momento em que todos os cidadãos serão 'normalmente' controlados pelo Estado do modo que antes se usava somente para criminosos, nas prisões".

Na década de 1990, o filósofo já havia lançado o livro Homo Sacer, em que alertava para o risco de aniquilamento da "vida política" nos regimes democráticos contemporâneos. A preocupação dele não se restringe a ocorrências eventuais como o cadastramento americano, mas ao que vê como semelhança de práticas típicas de um regime autoritário, de estado de exceção.

Capa do livro que você deve ler

Se estívessemos na Europa ou na Venezeuela, já estaríamos sob o jugo do Nazismo e/ou do Fascismo. Ainda bem que estamos no Brasil. Aqui temos o humor como uma das melhores armas para combater e resistir aos fascistóides de plantão. E um dos grandes símbolos desse tipo de resistência é o extinto jornal semanal O Pasquim.

Primeira edição do Pasquim

O jornal nasceu no Rio de Janeiro em 1969, uma época particularmente difícil. Em 13 de dezembro de 1968, o marechal Arthur da Costa e Silva assinou e obrigou todos os ministros do seu governo a assinarem o Ato Institucional nº 5 (AI-5), que suspendeu garantias constitucionais e deu carta branca para a repressão. Como pretexto, a ditadura militar utilizou o discurso feito na véspera pelo então deputado federal Márcio Moreira Alves, do antigo MDB.

Foi nessa reunião para assinatura do AI-5 que o então ministro do Trabalho e da Previdência Social, Jarbas Passarinho, disse a famosa frase: "Às favas, senhor presidente, neste momento, todos os escrúpulos de consciência" (Folha de São Paulo - 1968 - Ato Institucional nº 5 - Os Personagens).

Foi nesse contexto que o cartunista Jaguar e os jornalistas Tarso de Castro e Sérgio Cabral (o pai e não o filho vergonhoso) decidiram lançar um jornal humorístico que se opusesse à ditadura. Depois se juntaram a eles Ziraldo, Millôr, Prósperi, Claudius e Fortuna. O semanário ainda contava com a colaboração de nomes como Henfil, Paulo Francis, Ivan Lessa, Carlos Leonam, Sérgio Augusto e, eventualmente, Ruy Castro e Fausto Wolff.

O símbolo escolhido para o jornal foi o ratinho Sig (de Sigmund Freud), criado por Jaguar e baseado numa piada da época que dizia: "Se Deus havia criado o sexo, Freud criou a sacanagem".

O ratinho Sig simbolizava o esculacho

A famosa entrevista da atriz e minha musa, Leila Diniz, no final dos anos 1960, levou a ditadura militar a instaurar a censura prévia nos meios de comunicação através de um decreto que foi "batizado" com o nome dela. Em novembro de 1970, O Pasquim publicou uma sátira do quadro de Dom Pedro às margens do Ipiranga declarando independência de Portugal (o quadro é de Pedro Américo).

Leila Diniz foi uma paixão avassaladora da minha pré-adolescência

Uma reprodução do quadro foi publicado na capa do jornal. Sobre a cabeça de Dom Pedro um balão com os dizeres: "Eu quero mocotó!", que vinha de uma música (Eu também quero mocotó) composta por Erlon Chaves que fez muito sucesso. Resultado: toda a redação do Pasquim foi presa, menos Jaguar que conseguiu escapar. Nos quatro meses de prisão, Jaguar resistiu e manteve o jornal funcionando com a colaboração de Chico Buarque, Antônio Callado, Rubem Fonseca, Odete Lara, Gláuber Rocha e diversos intelectuais cariocas.

Essa capa deixou os militares furiosos

As prisões continuaram e a coisa engrossou na década de 1980. As bancas que vendiam jornais alternativos como O Pasquim, passaram a sofrer atentados a bomba. Temendo ameaças, cerca de metade dos postos de venda decidiram não mais repassar o jornal carioca. Veio a abertura política e o jornal foi perdendo a sua razão de existir.

No Carnaval de 1990, a escola de samba Acadêmicos de Santa Cruz homenageou toda a equipe de O Pasquim com o enredo "Os Heróis da Resistência". O último exemplar do jornal foi publicado em 11 de novembro de 1991. Era a edição nº 1072 ... porco, no jogo do bicho. A última anedota.

Eu teria muito mais a dizer, mas a intenção da Trincheira da Resistência é apenas ilustrar e contextualizar as receitas cujo ingrediente básico é o arroz. A missão é resistir a todas as tentativas autoritárias e fascistas de controlar opinião e pensamento no Brasil, exercendo justamente a liberdade de expressão, opinião e pensamento. Uma resistência bacana : )

A receita de hoje é uma homenagem ao pessoal do Pasquim que soube resistir nos fazendo dar boas risadas. Como o jornal é iminentemente carioca, a receita segue o padrão da cidade maravilhosa.

Arroz de Bacalhau
3 a 4 porções

Ingredientes

- 600 g de bacalhau dessalgado e desfiado em lascas
- 2 cebolas grandes picadas
- 250 ml de azeite extra virgem
- 2 dentes de alho
- 1 colher chá de orégano
- Sal, pimenta do reino e água suficientes
- 2 xícaras de arroz
- 4 tomates maduros sem pele e cortados em rodelas
- 1 ramo de salsa e cebolinha bem picado

Ingredientes

Numa panela, leve ao fogo a cebola em 200 ml de azeite. Refogue até alourar e junte metade das lascas de bacalhau. MIsture bem e adicione o alho esmagado, um pouco do orégano, sal e pimenta do reino moída na hora.

Junte o arroz e misture bem. Adicione a água pré-aquecida. Deixe cozinhar por cerca de 5 minutos. Retire do fogo, escorra bem e reserve.

Frite a outra metade do bacalhau e os tomates no resto do azeite.

Numa forma refratária untada, disponha camadas alternadas de arroz e de bacalhau com tomate até acabar. Polvilhe com orégano, tampe com papel alumínio e leve ao forno MÉDIO por cerca de 30 minutos.

Retire e sirva guarnecido com salsa e cebolinha. Acompanhe com um bom vinho português.

Ora pois pois ...

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Risotto Milanese, Peixada Siciliana, TPM e Orquídeas


Ricardo Icassatti Hermano

Feriadão patriótico e militarmente fui convocado pelas tropas que ocupam a Trincheira da Resistência a cometer a minha internacionalmente famosa Peixada Siciliana acompanhada do não menos célebre Arroz de Tangerina. Um dia coloco a receita dessa peixada aqui.

Dando os finalmente na peixada. Só o cheiro já é sensacional ...

E lá fui eu para o bunker de Little Mary, que já aguardava a chegada de @clarafavilla e me alertou logo de cara que estava com TPM. Dei início aos trabalhos de preparação dos ingredientes com um olho no padre e outro na missa. Enquanto isso, Little Mary assumia a lavagem da louça. Assim que terminou, já providenciou as cervejas. Enquanto eu tomava uma, ela entornava duas ou três.

Ainda bem que ela não precisou usar facas. Temi pela minha vida. Na TPM, alcoolizada e sem chocolate na casa, o perigo era palpável ... Assim, me ocupei dos cortes e ela ficou com os temperos, as cervejas e o arroz. Mas, cometi o erro de esquecer outro item que deve ficar longe das mulheres com TPM, o fogo.

A primeira panela de arroz queimou e ela deu risada. Em seguida, a lixeira começou a soltar fumaça e ela gargalhou de maneira estranha. Little havia tocado fogo na lixeira. Uma hora e seis cervejas depois, ela tocou fogo novamente na lixeira. Comecei a desconfiar que estava ao lado de uma piromaníaca e passei a imaginar uma maneira rápida de fugir se fosse preciso. Felizmente, o álcool falou mais alto, @clarafavilla chegou com sua alegria habitual e a fera acalmou. Ufa!

Romoaldo deveria ter comparecido e se encarregado do café, como havíamos combinado. Mas, eis que Cupido descolou uma "passione" interestadual para o combalido radialista. No melhor estilo David Coperfield, ele escafedeu-se e tivemos que encarar o famigerado Nescafé Solúvel da Little Mary.

O importante é que, entre mortos e feridos, todos se salvaram e o dia terminou com a barriga cheia e uma boa conversa na varanda entre passarinhos, rosas, cagaitas, orquídeas e borboletas azuis.

As orquídeas paparicadas de Little Mary

O resultado da primeira reunião de trabalho da Trincheira da Resistência foi que decidimos realizar outra reunião na próxima terça-feira. Dessa vez, no bunker da @clarafavilla. Na oportunidade, ela será agraciada com uma caneca exclusiva e personalizada do blog favorito de 10 entre 10 apreciadores de café, de liberdade de expressão, de liberdade de opinião, de liberdade de pensamento e de democracia.

Em seu próximo périplo por terras italianas, @clarafavilla levará a caneca para conhecer belas cafeterias e nos manterá informados das suas aventuras e peripécias. Postaremos aqui seus textos e fotos.

Para hoje, a receita com o nosso arroz de todo dia é uma homenagem à querida amiga Clara Favilla e sua longa viagem de férias pela Itália. Vá e volte em segurança : )

Risotto Milanese

Ingredientes

- 3 xícaras de caldo de galinha
- 1/2 colher chá de fios de açafrão
- 1/2 xícara de cebola muito bem picada
- 4 colheres sopa de manteiga
- 1 colher sopa de alho amassado
- 2 colheres sopa de azeite extra virgem
- 3/4 xícara de arroz Carnaroli
- 1 xícara de vinho branco
- Sal a gosto (sempre use pouco sal, é melhor para a sua saúde)
- 1/4 xícara de folhas de salsa picadas
- 2 colheres sopa de parmesão ralado na hora

Preparo

Use uma panela com o fundo grosso, tipo uma frigideira pesada.

Derreta e aqueça a manteiga junto com o azeite. Adicione a cebola, o alho e o açafrão. Refogue.

Adicione o arroz e misture até que esteja totalmente impregnado com a manteiga e o azeite. Quando começar a chiar, acrescente 1 xícara do caldo de galinha morno e o vinho.

Misture sem parar até que o arroz comece a secar. Adicione outra xícara do caldo de galinha. Continue mexendo até o arroz começar a secar novamente. Adicione a terceira xícara do caldo e continue mexendo sem parar.

Quando o arroz atingir o ponto al dente, acrescente a salsa picada e o parmesão ralado. Mexa até que o parmesão esteja totalmente derretido e incorporado ao arroz.

Guarneça com um ramo de salsa e sirva imediatamente acompanhado de alguma carne. Também pode servido como prato único.

Ma che? Che cosa? Mamma mia ...

sábado, 4 de setembro de 2010

Arroz Americano e o Pai da Força Aérea Americana


Ricardo Icassatti Hermano

Todo movimento de resistência começa com um indivíduo que percebeu "onde ia dar aquela merda". Geralmente, pagam um alto preço por isso porque os acomodados e mal intencionados não querem saber de mudança em seus feudos. É claro que a mudança acaba vindo. É inevitável, mesmo sob as mais sangrentas ditaduras. Mas, a perseguição é implacável. É preciso destruir completamente quem enxergou o que estava errado.

Esses indivíduos que deram início a mudanças foram os primeiros a resistir. Depois de mortos, se tornam herois, modelos a serem seguidos e coisas do gênero. Mas você acha que eles pensavam nisso, que queriam ser homenageados e laureados num futuro inexistente? Não, eles resistiram porque era a coisa certa a se fazer. Por isso pagaram um alto preço.

Os acomodados são extremamente incompetentes e isso ajuda muito no movimento de mudança. É muito fácil desmascará-los. Mas, para isso é preciso haver o sacrifício de um, o primeiro a enxergar, falar e denunciar. Hoje, a nossa história de resistência vem dos Estados Unidos. Um indivíduo que percorreu todo o percurso descrito acima e, hoje, é saudado como o "Pai da Força Aérea Americana".

O nome deste homem é William Mitchell (1879 - 1936), ou como era mais conhecido, Bill Mitchell. Ele lutou na Primeira Guerra Mundial como piloto daqueles aviões com estrutura de madeira e asas duplas recobertas com lona. Ganhou todas as condecorações possíveis por bravura em combate. Na França, comandou todas as unidades aéreas ali baseadas.

William Mitchell, um verdadeiro heroi americano

Após a guerra, foi nomeado diretor do Serviço Aéreo. Naquela época, não existiam forças distintas. Aviões, navios e tropas terrestres estavam sob o comando único do Exército Americano, que respondia ao Ministério da Guerra. Bill Mitchell era um estudioso competente da aviação e estrategista brilhante. Ele percebeu que os aviões seriam a grande arma nas guerras futuras.

Tentou de todas as maneiras alertar seus superiores para a necessidade de investimentos na área e a fragilidade da defesa americana no caso de um ataque aéreo de grandes proporções. Passou anos enviando correspondência a militares e parlamentares. Mas, após a guerra, os herois deram lugar aos corruptos. Como vocês sabem, a corrupção é coisa de frouxo, bajulador, tapado e incompetente. Os aviões utilizados na guerra ainda estavam na ativa e ninguém queria saber de investir no seu desenvolvimento e segurança.

Muitos pilotos morreram vítimas da corrupção

Além disso, Mitchell também defendia a divisão das Armas em Exército, Aeronáutica e Marinha. Via nisso - e estava certo - um grande ganho logístico e estratégico. Mas, os corruptos queriam manter o controle unificado porque era mais fácil roubar e os ganhos também eram maiores. As críticas o levaram a atritos com superiores, o que o levou a perder a patente de General e foi rebaixado para Coronel.

O resultado é que após anos de tentativas frustradas, Mitchell assistiu um grande amigo morrer num avião que não tinha segurança suficiente e seus superiores haviam sido alertados disso. O piloto foi obrigado a levantar vôo naquele avião e foi direto para a morte. Mitchell procurou a imprensa e deu uma entrevista bombástica, denunciando o sucateamento dos aviões, a insegurança dos pilotos e expôs as suas ideias. Ele sabia que caminhava para o cadafalso, mas não havia outra coisa a ser feita senão a certa.

O Exército Americano abriu um processo contra o então Coronel e o levou à Corte Marcial sob a acusação de "traição". O julgamento ficou famoso e envolveu até o presidente dos Estados Unidos, John Calvin Coolidge. Em 1955, Gary Cooper interpretou Bill Mitchell num filme que chegou a ser indicado para o Oscar na categoria de Melhor Roteiro. O nome do filme é The Court-Martial of Billy Mitchell, o mesmo nome que recebeu no Brasil.

Nesse julgamento, Mitchell foi humilhado, espezinhado, mal tratado, ofendido, teve seu direito à defesa solapado e terminou expulso do Exército. Resumindo, uma palhaçada lamentável. Durante o julgamento, o promotor fez o Coronel parecer um louco por ter previsto que os aviões um dia quebrariam a barreira do som e que no futuro os Estados Unidos sofreriam um ataque aéreo em Pearl Harbor e que os aviões estariam sendo pilotados pelos japoneses. Ele já havia feito testes e simulações.

Mitchell durante seu julgamento na Corte Marcial

Well, acho que não preciso dizer mais nada. Após a sua morte e todos os eventos posteriores, William Mitchell foi promovido pelo presidente Franklin Roosevelt a Major General e recebeu um monte de honrarias, claro. Além disso, é a única pessoa a ter seu nome em um modelo de avião de combate, o bombardeiro B-25 Mitchell. Esse caso nos mostra que, infelizmente, os tapados só aprendem tomando na cabeça ...

Os uniformes de Mitchell estão expostos no
Museu Nacional da Força Aérea Americana

É preciso ressaltar que esse heroi americano jamais, vou repetir, JAMAIS participou de um seminário sobre planejamento estratégico e visão de futuro. Quem precisa participar desse tipo de evento, nunca teve, não tem e não terá JAMAIS a capacidade de pensar estrategicamente ou ter visões do futuro.

A receita de hoje - sempre com arroz - é em homenagem a Bill Mitchell, um homem que decidiu fazer o que entendeu ser o correto, resistiu bravamente e deu início a um movimento que inspirou a criação da maior força de combate aéreo do mundo, a Força Aérea Americana.

Arroz Americano
8 porções

Ingredientes

- 2 copos americanos de arroz cru
- 2 ovos mexidos
- 1 lata de ervilhas
- 2 tomates picados sem as sementes
- 2 cebolas bem picadas
- 3 colheres sopa de cheiro verde picado
- 200 g de presunto cortado em pequenos cubos
- 10 azeitonas verses picadas
- 1 tablete de caldo (carne, galinha ou legumes)
- 1/2 copo americano de óleo de Canola
- 2 colheres sopa de manteiga
- 5 copos americanos de água fervente
- Sal a gosto
- 2 colheres sopa de Parmesão ralado

Preparo

Dissolva o tablete de caldo na água fervente. Acrescente todos os demais ingredientes e misture bem.

Passe tudo para um refratário e polvilhe com uma colher sopa de Parmesão ralado. Cubra com papel alumínio e leve ao forno por 40 minutos em temperatura MÉDIA.

Retire o papel alumínio e volte ao forno por mais 10 minutos.

Retire do forno e polvilhe com outra colher sopa de Requeijão ralado. Sirva imediatamente. Acompanha bem carne assada e churrasco.

Ninguém passa fome na Trincheira da Resistência