quinta-feira, 17 de março de 2011

St. Patrick's Day


Richard O'Connor

Hoje o mundo comemora o St. Patrick's Day (Dia de São Patrício), o padroeiro da Irlanda, com muita cerveja é claro. Eu até senti saudade do meu fígado. A data comemorativa foi tornada oficial no início do século XVII. Em Chicago, onde tem uma enorme colônia irlandesa, o rio que corta a cidade é inteiramente tingido de verde. Na Casa Branca, a Fonte Norte também jorra água verde nesse dia.

O Chicago River fica inteiramente verde

St. Patrick foi de escravo a Bispo da Igreja Católica na Irlanda, onde evangelizou por 30 anos. Conta a lenda que ele utilizou o trevo de três folhas para explicar a Santíssima Trindade. Daí também veio a associação com a cor verde. O santo é mais conhecido por expulsar as cobras da Irlanda. Provavelmente, é o simbolismo do seu trabalho para acabar com as práticas pagãs.

Sai fora cobra, que a Irlanda é terra de macho!!!
Vão para a Escócia, onde os homens vestem saia ...

Mas, o que interessa mesmo é que hoje o mundo se embebeda com cerveja Guinness, e as ruivas irlandesas brotam nos pubs de todo o planeta. Já contei aqui, no ano passado, as minhas aventuras com essas mulheres especialmente malvadas. O que elas fizeram comigo foi pura covardia. Elas me embebedaram e se aproveitaram do meu corpo. O pior é que não escrevem, não telefonam, não mandam um SMS ...

Irlandesa ruiva malvada ...

Aqui na Redação do Café & Conversa, não há mais grandes bebedores. Já fomos bons nisso. Hoje, as nossas bebidas são o café e a água mineral. Por isso, a homenagem do seu blog predileto a St. Patrick será uma receita típica daquelas terras rochosas, áridas e selvagens da Irlanda. Eu certamente fui irlandês em alguma vida passada.

Beer-Baked Irish Beef

Ingredientes

- 6 fatias de bacon picadas
- 1/3 xícara de farinha de trigo
- 1 colher chá de sal
- 1/2 colher chá de pimenta do reino moída na hora
- 1 colher chá de pimenta da jamaica em pó
- 1 kg de carne (patinho, alcatra, músculo ou filé) cortada em cubos
- 2 batatas grandes cortadas em pedaços grandes
- 4 cenouras cortadas na diagonal com espessura de 3 cm
- 4 cebolas grandes cortadas em oito pedaços
- 2 dentes de alho picados
- 1/4 xícara de salsa picada
- 1 colher chá de alecrim desidratado e amassado
- 1 colher chá de manjerona desidratada
- 1 folha de louro
- 1 lata ou garrafa de cerveja preta, tipo Stout

Preparo

Frite o bacon numa frigideira anti-aderente até que fique crocante. Retire e mantenha a gordura na frigideira.

Coloque a farinha, o sal, a pimenta do reino e a da jamaica num saco plástico tipo ZipLoc. Feche o saco e sacuda até misturar bem. Junte a carne e sacuda novamente. Em seguida, coloque a carne na frigideira e refogue até que esteja dourada em todos os lados.

Transfira a carne para uma panela do tipo Slow Cooker e adicione a cenoura, as batatas, as cebolas, o alho, a salsa, o alecrim, a manjerona e a folha de louro.

Em fogo MÉDIO-BAIXO, coloque a cerveja na frigideira e leve à fervura, raspando todo o fundo. Despeje a mistura na panela Slow Cooker. Tampe e deixe cozinhando em temperatura média por 4 a 5 horas, ou até que a carne esteja bem macia.

Antes de servir, remova a folha de louro e espalhe salsa e bacon por cima do cozido.

Se você não tiver a panela Slow Cooker, use uma caçarola com tampa que possa ir ao forno. Siga os mesmos passos e leve ao forno a 135º pelo mesmo tempo.

Lembra o nosso cozido, mas a cerveja faz toda a diferença

segunda-feira, 14 de março de 2011

Broken Heart's Brodo


Ricardo Icassatti Hermano, com valiosa ajuda feminina

A alma feminina é um grande mistério para os homens. Desconfio que seja até para as mulheres também. O que leva uma mulher a se interessar por um determinado sujeito? O que leva uma mulher a permitir que aquele determinado entre no seu universo, conheça detalhes da sua vida?

Nem Renoir conseguiu desvendar o mistério

Foi tentando desvendar esse mistério que me deparei com a seguinte situação. Mulher bonita, por volta dos 30 anos de idade, culta, profissional competente, criativa, cercada de bons amigos, mas procurando pelo cara certo que não aparece.

Um dia, essa mulher suspira ao conhecer um colega de trabalho no elevador da firma. Ele gentilmente havia segurado a porta para que ela entrasse. Um sujeito bem apanhado, educado e suavemente perfumado. Esses foram os primeiros itens a serem ticados por ela na lista de características fundamentais para um possível candidato. A atração brotou naturalmente.

Elegância, boas maneiras e um perfume discreto

Mais tarde, conversando com outras colegas durante a pausa para o café, assim como quem não quer nada, levantou a ficha corrida do rapaz. Soube que trabalhava no andar abaixo do dela, que havia sido dispensado pela namorada de longo tempo e por isso andava meio cabisbaixo com aquele olhar distante e tristonho de quem sofre por amor.

- Quem teria sido a louca que abriu mão de tão precioso espécime do gênero masculino? Será que ele precisa de colo? - pensou a moça, já imaginando como poderia oferecer seu ombro ao desolado rapaz.

A oportunidade não demorou a aparecer. Um amigo de infância estava lançando um livro sobre fungos que crescem na Antártida. Lá foi ela para a tarde de autógrafos na livraria. Apesar de não ser longa, a fila não andava devido a atenção - que desconhecia limite de tempo - dedicada pelo autor a cada leitor da sua tese de doutorado.

Ela então decide dar uma volta pelas prateleiras em busca de um guia de viagem sobre a Turquia, país que atiçava a sua curiosidade romântica. Bolsa, computador, livro do amigo e guia de viagem. Tudo foi ao chão quando o celular tocou em algum bolso ainda não identificado. Como ela mesma costumava dizer, é muita coisa para administrar.

Países exóticos atiçam a imaginação de moças românticas

Enquanto se decidia entre atender o celular e recolher seus pertences espalhados pelo chão, o homem atrás dela na fila se agachou e iniciou o resgate. Ela agradeceu sem olhar quem era o seu salvador. Estava atenta ao telefone ouvindo a musiquinha que a sua afilhada de apenas seis anos de idade aprendera na escola.

Ligação encerrada, ela verifica se havia recuperado tudo e deu por falta do guia de viagem sobre a Turquia. Olhou ao redor e, no meio do giro, deu de cara com o seu gentil salvador. O guia estava nas mãos dele, que o folheava displicentemente. Ela então soube que ele conhecia a Turquia e que gostava muito do país, especialmente a região da Capadócia.

Naquele momento, um dia conturbado e sem graça mudou de tom. O seu salvador e conhecedor da Turquia era ninguém menos que o homem do coração partido. A conversa engrenou, é claro, e ela nunca desejou tanto ficar numa fila que não anda. Ela ainda descobriu que o escritor e o salvador também eram amigos. Só familiares e amigos compram e querem autógrafos nesse tipo de livro.

Na saída, chuva torrencial. Na despedida, o homem de olhos tristes a convida para jantar no restaurante logo ali ao lado da livraria, pois ele mesmo não está mais fazendo suas refeições em casa. Após o chute da namorada, estava na fase "largadão". Neste exato momento, a mente feminina deu start no exaustivo processo de avaliação da situação e gerenciamento de crises:

- Meu Deus! Não acredito que ele está me convidando para sair! Meu gato precisa de ração! Minhas pernas não estão depiladas! Melhor assim ... Não, sua boba! Ele só quer ser educado e matar tempo! Jamais olhou pra você ... Mas, de repente, olhou! Meu gato está sem comer a mais de um dia e vai morrer de fome! Não acredito ... Sua tonta! Por que não comprou a comida do gato ontem? - E por aí vai ...

Desanimada com seus próprios pensamentos, ela disse que adoraria, mas antes precisaria alimentar seu gato. Como morava ali perto, sugeriu que se encontrassem em alguns minutos, após o cumprimento dos deveres "felino-maternais". Ele se ofereceu para acompanhá-la e perguntou se poderia utilizar o seu banheiro. O alarme da mente feminina soou ensandecido.

- Meu Deus! Mas, o banheiro está uma zona! E aquela calcinha velha secando no box? A cama! Nem arrumei hoje! - E por aí vai. Novamente.

Chegando ao apartamento, pediu que ele esperasse um pouco na sala. "Me dá cinco minutinhos?". Ele apenas sorriu e disse "tudo bem". Era um sujeito viajado, experiente, educado e cheiroso. Vistoria e arrumação rápidas, calcinhas voaram para o armário, o famélico gato foi alimentado e o banheiro liberado. Enquanto ele se aliviava, a cama teve os lençóis trocados em tempo recorde.

Uma chuva sempre ajuda ...

O convite para jantar acabou invertido. Ela o convenceu de que seria mais fácil fazer algo ali mesmo e evitar a chuva que só aumentava. Uma inspeção rápida na cozinha a colocou em modo "pânico". Além de uma garrafa de vinho (coisa que todo mundo parece ter), geladeira e despensa forneciam poucos ingredientes.

Uma cebola, alguns dentes de alho, azeite extra virgem, manteiga, sal, pimenta do reino, sementes de coentro, um pedaço de queijo parmesão e molho inglês. Na geladeira, um pacote de Capelletti (massa moldada a mão no formato de um antigo chapéu masculino italiano), com recheio de nozes e ricota.

Se eu disser com o que isso se parece, aí é que vão me chamar de machista mesmo

A coisa já melhorou de figura, mas nem tanto. Uma olhada desesperada ao redor e PIMBA! Os vasinhos de ervas que sua mãe lhe dava de presente todo mês. Santa e insistente mamãe!

Toda mulher deve ter esses vasinhos na cozinha

A ideia para o prato veio como um raio. Ela resolveu fazer um Brodo (caldo de legumes, carne ou frango) com as ervas para acompanhar a pasta. Seria um feito digno dos melhores chefs. O prato foi preparado com extremo cuidado e o homem do coração partido ajudou a cortar as cebolas enquanto narrava suas interessantes histórias de viagem, muitas aventuras pelo mundo.

Brodo é um caldo absurdamente delicioso

Um dia, querida leitora, pode ser que você esteja na mesma situação e precise lançar mão da criatividade incentivada pela carência e curar um coração partido. As mulheres são bem mais complicadas, como vocês podem notar pela extensão do texto. Por isso, mantenha suas calcinhas fora do banheiro, deixe sua cama sempre impecável e use a receita do Brodo. E ainda tem gente que me acha machista. Tremenda injustiça ...

Broken Heart's Brodo

Ingredientes

- 1 pacote de Capelletti semi pronto
- 1 cebola bem picada
- 3 dentes de alho inteiros amassados com a faca
- Azeite extra virgem
- 1 colher sopa de manteiga
- Molho Inglês Worcestershire em dose farta (50 ml)
- Alecrim fresco
- Tomilho fresco
- Sálvia fresca, no final 1 minuto antes de servir
- Pimenta do Reino
- Sementes de coentro
- Sal
- Queijo Parmesão
- 2 litros de água

Preparo

Aqueça o azeite e a manteiga. Refogue a cebola. Adicione o molho inglês (Worcestershire, por favor). Acrescente o alecrim, o tomilho e a água, alho, sal e pimenta. Acertar o molho inglês. Ferver por pelo menos 20 minutos.

Coloque o Capelletti no caldo e cozinhe pelo tempo indicado na embalagem ou até atingir o ponto al dente. Adicione a sálvia um minuto antes de servir. Sirva com um fio de azeite e Parmesão ralado na hora.

Isso cura qualquer coração partido ...

segunda-feira, 7 de março de 2011

A Música do Dia - Always On My Mind - Michael Bublé


Romoaldo de Souza


Lendo uma discussão na internet, sobre o comentário de uma jornalista paraibana, a respeito do Carnaval, e sem querer tirar a razão de quem gosta da festa, fiquei pensando em alguns fatos marcantes, à época em que pegava meu saxofone alto, Veril, depois um Yamaha, e saia de casa, para tocar no Carnaval, por um trocados. Bem um trocadilho, tocando por uns trocados.


Não era, mesmo, pelo dinheiro. Recordo bem, que a última vez que enfrentei essa empreitada não recebi nem R$ 800. E ainda tinha um agente público perguntando se a gente assinaria um recibo num valor maior. Foi denunciado, perdeu o cargo de comissão, mas já está de volta, com a ascenção do partido dele. Essa gente se multiplica com uma facilidade impressionante.


O tempo passa (“o tempo voa”) e eis que estou nesse “retiro” mais que espiritual, ouvindo a música de que gosto, sem atentar para o play da TV e sequer dar uma espiadinha no Carnaval do Rio, de São Paulo, da Bahia ou mesmo de Recife. Como não tenho mais intenção de criar uma legião de seguidores dos meus princípios, me abstenho de dar qualquer opinião sobre Carnaval.


Até porque, certamente, no balanço que a Polícia Rodoviária Federal fizer na Quarta-feira de Cinzas, a notícia sobre os acidentes nas estradas já será essa análise. Tomara que corra tudo bem. Se bem que tem motorista que corre que é uma beleza.


Coisa simples, Romoaldo, instiga minha mente. Coisas simples era meu propósito quando comecei a ouvir Michael Bublé, cantando Always On My Mind. Pois não é que recordo de momentos interessantes que podem ser classificados como simples. Como um telefonema, um abraço, uma xícara de café. Um oi!


Pessoas importantes na sua vida, que às vezes vão sendo deixadas “nessa longa estrada da vida”, quando poderiam ser reconquistadas com um alô. Um torpedo. Dependendo da operadora, grátis.


Agora mesmo, recordei de uma professora que tive na infância. Ela insistia que eu tinha jeito para bancário. Oh, um menininho de quatro, cinco anos e a professora já sabia o que eu seria.


- Bancário, meu filho, é aquele rapaz que fica no banco, recebendo dinheiro, contando prata (moedas) atendendo as pessoas - dizia.


O único banco que eu conhecia, era o banco da praça. Não fazia a menor idéia do que minha professora falava, mas eu fui gostando da fantasia. Até que um dia a professora chegou na minha carteira - como eram chamadas as bancadas dos estudantes - e sentenciou.


- Só tem um pequeno problema. Para ser bancário você vai ter de estudar muito. Muito mesmo. Depois, nenhum banco emprega gente canhota, li isso no Cruzeiro - mostrando a regista colorida.

Danou-se. Pensei! Pronto! Lá se foi por água abaixo minha primeira profissão. Sou uma dessas minorias, uns 10% da humanidade que se apoia na esquerda. Na esquerda, a mão claro!

"Ah, é bom que você saiba que no período medieval, os canhotos eram
queimados na fogueira porque a Igreja achava que eles eram bruxos"

    Um mês depois, a professora me passou uma receita. Eu tinha de decorar a fórmula química da Cibalena, um analgésico que marcou minha infância. “Dimetilaminofenildimetilpirasolona”. Não sei para que serve, mas serviu para a professora parar de me encher a paciência e deixar de ameaçar de que eu nunca seria nada na vida, sendo canhoto.


    Então. E o que as pequenas coisas têm a ver com tudo isso? Tudo. Always On My Mind já foi cantada por muito gente: Pet Shop Boys, Willie Nelson, Elvis Presley. Mas eu preferi trazer essa versão com o canadense Michael Bublé.


    Por dois motivos. A versão de Bublé está fundamentada num impecável quarteto. Um piano, um baixo, guitarra e bateria, o que deixa a melodia harmoniosamente integrada. Preste atenção no “diálogo” da voz de Bublé com o piano. Sinta como a guitarra “arma” o momento para o baixo se sobressair. Arranjo simples, mas inconfundível!


    Bom, isso sem perder de vista esse casaco que o canadense está usando. Já copiei esse vídeo para vários amigos que estão com o passaporte carimbado para o Canadá. Eu quero um casaco desses. Tamanho G. Simples, não?



    Always On My Mind

    Wayne Thompson, Mark James & Johnny Christopher


    Maybe I didn't treat you

    Quite as good as I should have

    Maybe I didn't love you

    Quite as often as I could have

    Little things I should have said and done

    I just never took the time


    You were always on my mind

    You were always on my mind


    Tell me, tell me that your sweet love hasn't died

    Give me, give me one more chance

    To keep you satisfied, satisfied


    Maybe I didn't hold you

    All those lonely, lonely times

    And I guess I never told you

    Im so happy that you're mine

    If I make you feel second best

    Girl, Im sorry I was blind


    You were always on my mind

    You were always on my mind


    Tell me, tell me that your sweet love hasn't died

    Give me, give me one more chance

    To keep you satisfied, satisfied


    Little things I should have said and done

    I just never took the time

    You were always on my mind

    You are always on my mind

    You are always on my mind




    sexta-feira, 4 de março de 2011

    O pen drive da minha filha - "Black Coffee" - Ella Fitzgerald


    Romoaldo de Souza

    Você sai de casa, pega o carro disposto a tomar um espresso especialmente tirado por um barista que sabe quase tudo daquilo que está fazendo. Ele comenta a temperatura, fala da acidez, do corpo do café. Grãos selecionados. Torra no ponto.

    O barista orienta que a água com gás deve ser tomada antes do espresso, para ajudar a limpar as papilas gustativas... Atendimento de primeira. Pronto! Meu paraíso predileto, você pensa. Quando de repente...

    - When I was young. It seemed that life was so wonderful. A miracle, oh it was beautiful, magical. And all the birds in the trees. Well they'd be singing so happily. Oh joyfully, oh playfully watching me.

    Nada contra as meninas no videoclipe do Supertramp, mas The Logical pode ser música para uma sorveteria infanto-juvenil, daquelas que servem milk shake de Ovomaltine. Numa cafeteria requintada que se preze, o som é outro.

    2 bolas de sorvete de creme, 4 colheres de calda de chocolate,
    1 copo de leite e 8 colheres de ovomaltine

    Aí você pode até perguntar: “Sim, mas existe trilha sonora apropriada para cafeterias?”. Existe. Dependendo do ambiente, do horário de funcionamento, da localização, um jazz cai bem. Blues, preferencialmente instrumentais, marcam o ambiente. Um lounge. Bossa Nova. Agora Supertramp, Eagle, Kool & The Gang, Ana Carolina fazem música para outro ambiente, não para uma cafeteria.

    Sabe que, dia desses, estava tomando um espresso daqueles cujo retrogosto marcam o dia. Daqueles espressos que você sai da cafeteria levando as boas recordações, pensando nas pessoas que estavam ao seu lado, na mesa em frente. Aquela jovialidade toda. Recorda até uma frase da infância: Ah se os jovens soubessem e os velhos pudessem ...

    Agora, voltando para dentro da cafeteria. Imagens, pensamentos, gente, objetos passando em minha mente e, sem mais nem menos, começo a escutar algo como Last night I dreamt of San Pedro”. Não me contive. Parei a xícara na altura do peito. “Afinei” os ouvidos e constatei. No play da cafeteria tocava Madonna aos berros: “Just like I'd never gone, I knew the song. A young girl with eyes like the desert. It all seems like yesterday, not far away”.

    Jesus amado!, pensei. Amado pela Madonna, claro! Assim com aquele jeito de cliente desconfortado, chamo a proprietária e não é que a desculpa foi a mais inusitada que jamais escutei?

    - Isso é o pen drive da minha filha. Tem de tudo. Jazz, samba, aquela menina... (Adriana) Calcanhoto. É uma ‘mistureba” só - Pedi a conta, antes que minha paciência contaminasse o retrogosto do café.

    Paguei a conta, e sai assoviando uma letra de Paul Francis Webster, interpretada magistralmente por Ella Fitzgerald: Now a man is born to go a lovin' A woman's born to weep and fret”. Trilhas sonoras em cafeterias são para quem entende do riscado. Não é para serem misturados com as músicas que estão no pen drive da filha que gosta de Supertramp. Nada contra as filhas. Especialmente as bonitas ...


    Black Coffee

    (Sonny Burke e Paul Francis Webster)


    I'm feeling mighty lonesome

    Haven't slept a wink

    I walk the floor and watch the door

    And in between I drink

    Black Coffee

    Love's a hand me down broom

    I'll never know a Sunday

    In this weekday room


    I'm talking to the shadows

    1 o'clock to 4

    And Lord, how slow the moments go

    When all I do is pour

    Black Coffee

    Since the blues caught my eye

    I'm hanging out on Monday

    My Sunday dreams to dry


    Now a man is born to go a lovin'

    A woman's born to weep and fret

    To stay at home and tend her oven

    And drown her past regrets

    In coffee and cigarettes


    I'm moonin' all the morning

    mournin' all the night

    And in between it's nicotine

    And not much heart to fight

    Black Coffee

    Feelin' low as the ground

    It's driving me crazy, this waiting for my baby

    To maybe come around


    My nerves have gone to pieces

    My hair is turning gray

    All I do is drink black coffee

    Since my man's gone away