quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Tudo pelo poder

Ricardo Icassatti Hermano

Sou um crítico feroz dos títulos que colocam aqui no Brasil em filmes americanos e de outras nacionalidades. É cada absurdo que deveria haver uma lei para punir os responsáveis. Mas, às vezes, alguém acerta bonito. É o caso do filme Tudo pelo poder. O cara acertou na mosca. Até porque o nome original, The ides of March, exige um certo conhecimento para entender.

Cartaz do filme

Ides of March é uma expressão que vem do Latim Idus Martii, que dava nome ao dia 15 de março no calendário romano. Provavelmente se referia ao dia da Lua Cheia. Além de março, a expressão também nomeava o 15º dia dos meses de maio, julho e outubro e o 13º dia dos demais meses. Além disso, o dia 15 de março era dedicado ao deus Marte e uma grande parada militar era realizada em Roma. 

Modernamente, a expressão Ides of March passou a ser conhecida como a data no ano 44 A.C. em que o imperador Júlio César foi esfaqueado 23 vezes no Senado Romano por um grupo de conspiradores liderados  por Marcus Junius Brutus e Gaius Cassius Longinus. 

Quadro La Morte di Cesare, de Vicenzo Camuccini,
do acervo da Galeria Nacional de Arte Moderna, em Roma

Segundo relato de Plutarco, César havia sido alertado por um oráculo sobre o perigo de ser assassinado até o Ides of March. Mas, o imperador desdenhou da profecia e disse que a época havia chegado e nada acontecera. Ao que o oráculo respondeu: "Ave, César, mas ainda não passou". Essa cena é maravilhosamente retratada na peça Julius Caesar, de William Shakespeare. 

Pois bem, apesar do título original nos remeter ao mesmo contexto, ou seja, seres humanos capazes até de matar pelo poder, ele não é auto explicativo para quem não estudou História com afinco. O título Tudo pelo poder sintetiza melhor essa ganância desvairada e sem medidas de quem está disposto a pagar qualquer preço pela fugacidade do poder. Pura ilusão.

Conchavos, arranjos, negociatas e pronto!
Sua alma nas mãos do Diabo ...

O filme conta o drama de um jovem jornalista americano que se engaja idealisticamente na campanha eleitoral de um candidato democrata à Presidência dos Estados Unidos. Mas, por que drama? Porque envolve fé, traição, morte e a perda de uma inocência renitente, quase inconsciente. O jornalista Stephen Meyers é interpretado por Ryan Gosling e o candidato governador Mike Morris é vivido por George Clooney, que também dirige o filme e assina o roteiro com outros três roteiristas. 

Imagine uma vida em que não é possível confiar em ninguém

O elenco é da pesada e conta com as participações sensacionais das feras Paul Giamatti, Philip Seymour Hoffman e Marisa Tomei, além é claro da minha outra Musa 24 Horas, a deslumbrante Evan Rachel Wood ... (suspiro)

Minha Musa 24 Horas faz o papel de uma estagiária. Huuummmm ...

O enredo é bem conhecido. Política é um jogo sujo de ambições, traições, paranoia. Aqueles que se submetem a ele nem sabem o que querem fazer assim que chegarem lá. Querem apenas chegar lá. E para isso vale qualquer coisa, em qualquer posição de poder, não necessariamente apenas na política profissional. 

Será que vale a pena se tornar um desalmado por algo tão fugaz?

Nada que eu ainda não tenha visto em meus 30 anos de jornalismo e 20 de cobertura política. Ah! Boa parte do discurso do candidato e seu material gráfico de campanha são claramente inspirados no discurso e no material utilizados pelo então candidato Barack Obama ...

Staff de campanha e a jornalista interpretada por Marisa Tomei
Relações perigosas ...

Alguns abandonam os escrúpulos ainda no berço. Outros vão abandonando pelo caminho e conforme as circunstâncias. Ainda sobram aqueles que vivem o momento decisivo, quando devem escolher se abandonam todos os escrúpulos, crenças, sonhos e ingenuidade de uma vez ou simplesmente se retiram de cena e mantêm a integridade e a alma.

Uma vez feita a escolha, não há volta

Esse é o dilema enfrentado pelo jovem jornalista Stephen Meyers ao se deparar com a verdade crua e nua sobre aqueles que o cercam e a quem admira. Não há diferença na política de qualquer país. Sempre haverá gente disposta a tudo pelo poder, seja democracia, monarquia ou ditadura. Até porque nessa busca insana estão envolvidos os defeitos mais básicos e universais dos seres humanos. 

O grande jogo de interesses do poder: "Believe" ...

O filme é excelente e Clooney está visivelmente pavimentando uma carreira de diretor/roteirista. Talvez se espelhando em Clint Eastwood, uma lenda viva do cinema americano. E o cara está se saindo muito bem. O Café & Conversa assistiu, gostou e recomenda. Veja o trailer:


terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Pendure o coador de pano

Romoaldo de Souza

Com tantas novidades para quem quer desfrutar do prazer de tomar um saboroso café - como as cafeteiras que vêm com a cápsula pronta e você só precisa colocar na máquina e servir em casa ou no escritório - a pergunta que não quer calar é: ainda há espaço para o café coado?

Neste comercial, da italiana Lavazza, a atriz Julia Roberts recebeu perto de R$ 3 milhões por esse sorriso! 


George Clooney e John Malkovich também foram bem pagos para fazer essa peça publicitária da Nespresso


Dizem os sites de fofoca que o pessoal do Café & Conversa encheu as burras de dinheiro nessa peça institucional da french press em parceria com a Grenat Cafés Especiais


Bom, mas especulações à parte, em torno de quanto esses artistas andam recebendo de cachê, pesquisas apontam que o café coado está em voga, continua sendo o método mais querido pelos brasileiros. É que muitos de nós crescemos tomando café coado, aquele café passado no coador de pano da vovó.



Herdamos da avó o costume do café coado,
mas não precisamos herdar também o coador
Para saber mais o que fazer com o coador de pano, escute nosso podcast


Um abraço, bom café!!!

domingo, 8 de janeiro de 2012

Expedição ao Monte Roraima - Parte Final

Ricardo Icassatti Hermano

Como de costume, me levantei com a primeira ameaça de claridade. Fiquei vagando pelos arredores do acampamento ainda escuro enquanto todos ainda dormiam, até os cachorros. Precisava daquele momento sozinho antes que o mundo acordasse. Era nosso último dia ali. O silêncio era absoluto enquanto o sol nascia vagarosamente. Eu estava saboreando minha paz de espírito, orando, agradecendo e absorvendo as energias daquele lugar sagrado para os índios e, agora, para nós também. 

Era aqui que eu escovava os dentes enquanto estava no topo do Roraima
(Foto Roberto)

Repassei na memória os últimos e fantásticos dias. Tudo me pareceu meio surreal. Um dia antes eu estava a quilômetros dali, no alto do Monte Roraima; estava esfolando meus pés, jogando pedra em cascavel, atravessando rios e caminhando até a exaustão. Agora, estava admirando as estrelas que ainda brilhavam num céu que deixava de ser negro e se tornava azul. Desci até o rio para escovar os dentes. Fiz questão de escovar demoradamente. Pra que pressa?

Da esquerda para a direita: guia Marcelo, Carina, Rosinha, Amanda e eu
(Foto Henrique)

O café da manhã seguiu o ritmo do jantar na noite passada, mas já era possível ver a tristeza da saudade nos olhos do grupo. A experiência havia sido intensa para todos e com um significado particular para cada um. Pela primeira vez, partimos em silêncio e sem a nossa algazarra habitual. Cada um mergulhado nos seus pensamentos. Alguns quilômetros à frente, retomamos o ritmo normal de conversas e foi assim até a sede do Parque Nacional Canaima, onde chegamos debaixo de uma chuva fina.

Café da manhã tomado, prontos para partir ... (Foto Henrique)

Após a revista das nossas mochilas, das fotos, tomar uma Coca Cola gelada e despedidas da equipe de guias e carregadores, embarcamos nos carros 4X4 e voltamos à chamada civilização. O corpo estava um caco, mas o espírito pulava feito um cabrito. 

A turma toda reunida para a foto final (Foto Henrique)

Paramos num restaurante de estrada para almoçar e comemos muito bem. Havia duas opções: um prato com carne e outro com truta grelhada. Eram porções enormes, mas teve gente que comeu os dois pratos. Carina fez um discurso emocionante de agradecimento coletivo aos nossos guias Marcelo e Tirso, que encheu nossos olhos de água.

Almoço do grupo. Enquanto eu contava um "causo",
o Roberto (ao meu lado) devorava o segundo prato ... (Foto Henrique)

Em Santa Helena, trocamos as 4X4 pelas vans com ar condicionado. Estávamos retornando à vida rotineira por etapas, como uma descompressão de mergulho. Parte do grupo ficou no hotel Aipana, em Boa Vista, onde o Magno, dono da Roraima Adventures, nos aguardava. Rosinha e eu ficamos impressionados com a atenção dele e o seu profissionalismo que chega a detalhes mínimos. Deixa no chinelo muita empresa de cidade grande ... Agradeci efusivamente a ele a experiência. 

Essas duas, Dani e Yoshimi, são minhas heroínas,
carregaram mochilas maiores que elas e
sorriram o tempo todo. Aqui, em pose Changeman (rs).

Providências como banho, lavagem de roupa, curativos etc. foram tomadas. Um breve descanso vendo a CNN. Quanta coisa pode acontecer no mundo em apenas seis dias. Jantamos com os poucos integrantes do grupo que estavam hospedados ali também. Escolhemos o bar à beira da piscina porque não aguentávamos ficar confinados. Comemos muito e conversamos muito, mas o cansaço bateu e fomos dormir mais cedo do que queríamos.

Na volta, Amanda sonhando que finalmente aprendeu a falar espanhol ...

Alguns partiram na madrugada, outros ficaram por mais uns dias e outros foram no mesmo vôo que nós até Manaus. Chegando em Brasília, me despedi de Rosinha com um aperto no coração, mesmo sabendo que voltaria a encontrá-la no Congresso Nacional. Ela foi uma companheira de viagem admirável e enfrentou as dificuldades com desenvoltura Zen. Eu que já era fã, virei tiete. E a vida retoma o seu trilho ... até a próxima aventura : )

Última noite no acampamento do Rio Ték com a melhor
cerveja quente e a turma mais bacana do mundo (Foto Henrique)

sábado, 7 de janeiro de 2012

Expedição ao Monte Roraima - Parte 5

Ricardo Icassatti Hermano

O dia amanheceu e nos encontrou excitados, agitados. Começava o nosso retorno ao mundo civilizado. Minha alma ainda não dera notícias, mas eu não estava preocupado. Sabia que estava protegido e que ela voltaria no momento em que achasse apropriado. O café da manhã foi reforçado com ovos mexidos, mortadela, queijo, pão, sucrilhos, chocolate quente e café. Era para tirar a barriga da miséria mesmo.

Agitação e fartura no café da manhã. Rosinha já defendendo o dela

A descida seria muito mais perigosa e sacrificante do que a subida. Os joelhos seriam muito mais exigidos e, como explicou a atleta do grupo Carina Ulsen, outros grupos musculares entrariam em ação. Em relação à altitude, já estávamos aclimatados. Portanto, a descida não teria qualquer problema nesse aspecto, pois teríamos mais e mais oxigênio a cada metro descido. Fiz os curativos e a proteção com esparadrapo no pé. 

Mais um flagrante do café da manhã

A caminho do paredão, o nosso guia Tirso (se escreve Yirso, me avisa a Carina) sugeriu irmos até o ponto mais alto do Roraima, que fica no topo de uma formação rochosa chamada "Maverick", pois olhando de perfil - e com muita imaginação - se assemelha ao carro que fez sucesso nos anos 70. O tempo estava meio indefinido, meio nublado meio sol, mas topamos. E foi a decisão mais acertada que tomamos. A sorte estava ao nosso lado.

Foi isso o que encontramos em cima do "Maverick"

Quando chegamos ao ponto mais alto o sol brilhava a todo vapor. As nuvens haviam descido e o céu estava absolutamente claro, limpo e luminoso. Podíamos ver quilômetros em volta, pois estávamos na beirada do monte, com um precipício vertical de quase um quilômetro à nossa frente. Lindo, deslumbrante, acachapante, vertiginoso, magistral. A natureza com toda a sua força e beleza e nós ali no meio dela.

Chegando ao topo do mundo

Fiz algumas fotos e vídeos com meu iPhone. Logo após terminar o vídeo da minha chegada ao ponto mais alto, a minha alma retornou ao meu corpo. No momento certo. Eu estava elevado, feliz, realizado, entorpecido, iluminado, pleno de vida quando ela me encontrou. Instantaneamente soube dos encontros dela com meu pai e o Seu Aires, um palestrante do centro espírita que frequento, falecido pouco antes do Natal. 

O fim do mundo e a curvatura da Terra

Todos estavam muito bem e as conversas foram muito boas. Minha alma ainda se encontrou com outras almas que não conheço e se divertiu um bocado por ali. Agora eu estava pronto para retornar. Havia perdido uns quilos, meu batimento cardíaco estava bem baixo, minha respiração bem longa. A paz me envolveu como as nuvens do Roraima.

A parte mais alta do Roraima é essa pedrinha no topo da pilha
E olha a Carina em seu momento de paz também

De repente me lembrei de quando era garoto e de como gostava dos gibis e filmes do Tarzan, aqueles em preto e branco protagonizados pelo Johnny Weissmuller. Pratiquei meses a fio até imitar perfeitamente o famoso grito do homem macaco. Não tive dúvida. Fui até a beirada e soltei o grito. A Andrea se empolgou e soltou seu grito também. Em seguida me disse sorrindo: "É muito bom gritar daqui de cima". Era só o que eu precisava para soltar meu segundo grito de Tarzan. Na meia hora seguinte, eu tinha um sorriso grudado no rosto.

Minha alma voltou, agora eu tenho a força : )

Minutos depois, as nuvens retornaram e rapidamente cobriram o topo do monte. Tudo voltou ao normal e nós partimos em direção ao acampamento base. Conforme a programação, dessa vez não dormiríamos lá, apenas almoçaríamos e seguiríamos adiante até o acampamento do Rio Ték. Seria uma descida de 15,5 quilômetros. Andaríamos o dia todo. Minhas pernas ainda doíam, mas o negócio era seguir em frente. Chegando ao Rio Ték, tomaria um banho demorado. A água que no primeiro dia parecia gelada, depois do Monte Roraima seria uma banheira de água quente.



A descida foi como o esperado. Sofrida, dolorida e difícil. Minha bota tem o bico afinado, pois é feita para trekking e não para escaladas. Um bico largo seria melhor. Na descida, o peso do corpo empurra os dedos dos pés para a frente e, depois de horas assim, chega um momento em que o bicho pega. Aos poucos fui perdendo a sensibilidade nos dedos, mas as solas queimavam. Normal, faz parte do pacote.

Rosinha e seu modelito Tuareg Fashion para escapar dos paparazzi

Após o almoço, pegamos o terreno irregular e não menos cansativo. Ainda era 90% descida até o Rio Ték. Saímos de 2.800 metros de altitude e chegaríamos ao acampamento onde iríamos dormir a 1,3 mil metros de altitude. Mais alto que Brasília! A maior parte do caminho fiz sozinho, mas também andei com um e outro integrante do grupo. Eram momentos relaxantes porque conversávamos um bocado e esquecíamos das dores.

O grande e poderoso Maverick

Também tive a inesperada e indesejada companhia de uma cascavel ... Ela chocalhou duas vezes escondida num capinzal à minha esquerda. Parei, peguei uma pedra, descobri onde ela estava e dei-lhe uma pedrada. A cobra saiu em disparada enquanto eu gritava: "Vai balançar esse rabo pra outro! Piriguete!".

Na travessia do Rio Kukenan, sofremos um ataque maciço de borrachudos. As únicas partes do meu corpo que estavam descobertas e sem a proteção do repelente eram as canelas. Subi as calças para atravessar o rio e enquanto abria a mochila para pegar o spray, os malditos borrachudos atacaram. Foi uma carnificina. O Cido estava sem camisa e sofreu mais. 

Quando finalmente avistei o Rio Ték e o acampamento quase nem acreditei. Eram umas 16h e liguei o piloto automático porque minhas pernas já não obedeciam ao cérebro. "Seja o que Deus quiser", pensei. E me joguei ladeira abaixo. Ao retirar as botas, descobri que havia perdido a sensibilidade nos dedões dos pés. Algum nervo foi esmagado e resultou nisso. Mas, é só esperar que volta. Todos os ferimentos que tive são curáveis.

Rio Ték e o Monte Roraima aberto para que pudéssemos nos despedir

O banho foi demorado e caprichado. Limpei tudo : ) Mas, por dentro, estava seco como um radiador estourado. Por mais água que eu bebesse, a sede não me largava. O Roberto veio me dizer que tinha cerveja quente numa pequena venda dos índios, mas na verdade eu queria uma Coca Cola gelada, não sei porquê.

Acabei tomando uma cerveja quente enquanto aguardava a chegada da Coca Cola. Eu nem tomo refrigerante, mas acho que aquela lata vermelha simbolizava o retorno à civilização e seus venenos. Ou só estava com falta de potássio mesmo. Vai saber ... O fato é que estava deliciosa.

Rosinha chegou já anoitecendo. Desviaram um pouco do caminho para conhecer uma velha Xamã, me disse ela. O jantar foi uma festa. Estávamos todos muito cansados, mas felizes por termos realizado a proeza de termos voltado inteiros. Nenhum acidente, ferimento ou doença grave. Só isso já merecia uma comemoração. 

Assim, nossos guias e a equipe de índios que nos assistiram nos últimos cinco dias prepararam uma massa "roraimera" e providenciaram as cervejas quentes. Tirso se encarregou de nos entreter com um dos melhores shows de comédia stand up que já assisti. Rimos até não aguentar mais e fomos dormir empanturrados e exaustos. Minha alma e eu estávamos sintonizados. A paz me abraçou e não soltou mais. 

Ainda teríamos 14 quilômetros no dia seguinte. Antes de entrar na barraca, olhei para o céu estrelado. Não é como na cidade. Eu vi todas as constelações e o planeta Vênus brilhando solenemente. A lua em quarto crescente estava tão clara que fazia sombra. Respirei profundamente para não esquecer mais o cheiro daquele lugar. Senti uma ponta de saudade. Aqueles tinham sido dias mágicos em companhia de gente da melhor qualidade.

Amanhã eu conto o final dessa jornada. 

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Expedição ao Monte Roraima - Parte 4

Ricardo Icassatti Hermano

Pensei que na noite/madrugada em que cheguei ao topo do Monte Roraima, a minha alma retornaria da mesma maneira como deixou o meu corpo. Mas, nada aconteceu nesse sentido e nem fiquei preocupado. Ela certamente estava se divertindo. O que tem de ser, será. A noite começou com chuva, frio e vento. Na madrugada piorou muito. Como estávamos instalados mais para dentro da caverna, sequer ouvimos a ventania. Mas, quem ficou mais para fora sofreu um bocado. 

Por onde andará minha alma?

O grupo que havia chegado e pernoitado no acampamento base passou apertado a noite. Barracas voaram e o rancho deles ficou semi destruído com a ventania, conforme soubemos por eles mesmos quando chegaram ao Hotel Guacharo no meio da tarde.

Viver no meio das nuvens é ter o melhor nebulizador do mundo

O nosso dia começou nublado e frio. Aliás, frio é uma constante no topo, pois estamos a mais de 2,7 mil metros de altitude. A adaptação ao ar rarefeito foi rápida. Já não sentíamos o peso de respirar do primeiro dia. Assim, enquanto uma pequena e disposta parte do grupo se dirigiu ao marco das três fronteiras, Brasil, Venezuela e Guiana, para fazer o chamado "passeio longo" com 12 quilômetros para ir e 12 km para voltar, o resto - eu incluído -  foi para o "passeio curto", uns 10 km no total. 

Eu vou, eu vou, explorar o Roraima eu vou ...

Não me arrependi. O passeio curto nos levou a vários lugares diferentes, como as jazidas de cristal, onde contou o nosso guia já foram extraídos diamantes. Hoje é proibido tirar qualquer coisa lá de cima ou sequer do Parque Nacional Canaima. Também conhecemos cachoeiras e as famosas Jacuzzis, uma série de banheiras naturalmente escavadas na rocha cheias de água transparente e geladíssima. Apenas um integrante do nosso grupo teve coragem de entrar.

Essas são as Jacuzzis

Também tivemos aula sobre a flora e a fauna únicas ali no topo. Percorremos o famoso local da queda de um helicóptero que levava a equipe do programa Globo Ecologia. Danton Melo, irmão do ator, dublador, roteirista, produtor e diretor Selton Melo, era o apresentador do programa e quase morreu no acidente. Um local chamado Jardim do Éden ficou marcado. Segundo nosso guia, Adão e Eva se banhavam ali. Nosso almoço foi servido no meio do caminho. Não sei como fizeram aquilo, mas chegou ainda quente. 

Alguns exemplares da flora do Roraima 

Insetos e pássaros se alimentam dessas flores 

Uma espécie de pássaro faz uma cirurgia nessa flor para comer o néctar 

Mais um belo exemplar 

Essas são carnívoras ...

Ao voltarmos para o Hotel, mais um grupo havia chegado. Era o que havia sofrido com a tempestade da noite anterior. Era um grupo barulhento e exigente. Não queira dormir na caverna e logo surgiram uns claustrofóbicos. Como eu estava muito longe daquela vibe, fui tomar meu banho em outra caverna onde havia uma cachoeira interna. Não encontrei o caminho que levava à cachoeira porque minha lanterna é muito fraca. Tomei o banho, junto com o resto do grupo, numa pequena banheira que fica logo na entrada.

Rosinha incorporou Gene Kelly e fez seu famoso cover de Singin' in the Rain

A água estava cheia de grilos gigantes que nadam debaixo d'água. Espantei os bichos para que as meninas não vissem. Seria um auê danado. Uma delas já estava sentindo os sintomas da claustrofobia trazida pelo novo grupo, o que levou a uma ciranda de barracas até que ela voltasse para o lugar onde estava inicialmente. Um dos integrantes do novo grupo não conseguiu ficar dentro da caverna e também teve que dormir na beirada. Ele desistiu do resto da viagem e pediu para descer junto com o nosso grupo no dia seguinte.



O guia Marcelo nos contou o caso de um integrante de outro grupo que estancou no acampamento base e não houve meio de convencê-lo a subir o Roraima. Como não seria possível retornar, deixaram comida suficiente para ele e o pegaram na volta. Não é apenas uma questão de forma física,. Os índios dizem que quem não estiver bem de cabeça e de alma, não conseguirá subir e descer a montanha. 

Eram os deuses astronautas? Alienígenas no Mundo Perdido ...

O jantar foi animado. Estávamos felizes por estar ali, por ter concluído aquela etapa inteiros. O dia havia transcorrido com tranquilidade e sorrisos. Até banho a gente tomou. A chuva deu uma trégua e comi como um cachorro vira-lata faminto. Ainda bem que Rosinha não come muito e me dá metade do prato. E eu ainda repito : ) Mas, como já disse, nada dessas calorias ficou. Perdi bastante peso, confirmado pelos buracos do cinto. Após uma boa conversa com o pessoal, o sono me pegou.

Amanhã conto mais.

Café orgânico e o valor agregado

Romoaldo de Souza

Na quinta-feira, em um supermercado, numa daquelas gôndolas, o cliente pede uma dica sobre café. Nas prateleiras, demos de cara com um café orgânico do Sul de Minas Gerais.

O café orgânico é café cultivado, todo ele, sem o emprego de agrotóxico nem na prevenção de pragas nem antes, na hora do adubo, ou seja, é um café sem qualquer produto químico.

Produtores estão apostando no mercado economicamente ecológico

 O mercado de cafés especiais, entre eles, o café orgânico, ganha cada vez mais destaque porque quem consome um produto assim sabe que o produtor trocou a adubação química pela orgânica, que usa borra do próprio café e/ou o bagaço da cana de açúcar, essa compostagem orgânica que além de barata é uma boa colaboração no processo de proteção ao meio ambiente. 

Para saber mais, escute o podcast



Um abraço, bom café!

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Expedição ao Monte Roraima - Parte 3

Ricardo Icassatti Hermano

O dia começou cedo. A noite foi de vento forte e chuva no acampamento base. Nada preocupante, mas acordou a todos com as barracas sacolejando de um lado para o outro. Houve quem se assustasse. Rosinha e eu dormimos feito anjos, sem susto e sem medo de ser feliz, mas checando de vez em quando se a barraca resistiria ao vendaval. 

Depois de uma noite tempestuosa, a surpresa da manhã

A manhã nos surpreendeu com sol e vento gelado, o cenário do nosso desejejum. O chão era um tapete escorregadio de lama preta. Como sempre, tínhamos que comer rápido e partir para o Roraima. Tinha início a parte mais dura e perigosa da expedição. 

De blusa amarela, nosso guia Tirso mostra o caminho que faríamos em seguida

Não tenho costume de tomar café da manhã pois enjôo facilmente com comida antes do meio-dia. Mas, naquelas condições, eu comia o máximo que conseguia e conforme avançava na caminhada o enjôo ia passando. Precisava daquelas calorias para obter e queimar energia. A musculatura doía e os pés doíam, mas o ferimento coberto com uma armadura de esparadrapo estava tranquilo. 

As nuvens foram chegando devagarinho ...

Atravessamos o primeiro rio e dali em diante só conhecemos subida íngreme. 6,5 quilômetros nos aguardavam, sendo que a parte do paredão era uma escalada de quase um quilômetro sobre rocha e pedras soltas. A trilha tinha cerca de um metro de largura. À minha esquerda, um despenhadeiro. À minha direita, um paredão reto de rocha. Ainda levava uma mochila nas costas. 

Rosinha não se intimidou com a montanha

Na metade do caminho passamos por baixo de uma cachoeira que vem lá do topo. O local se chama "Passo das Lágrimas". Não sei se o nome é por causa da água que chega ali em enormes gotas ou se é porque ali que o povo senta e chora, pois a dificuldade de seguir ou de voltar é a mesma. Não deu nem para fotografar porque meu iPhone não é à prova d'água. 

O Passo das Lágrimas fica logo ali na frente

Decidi manter o foco sempre no passo seguinte, sem me importar com quanto tempo ou distância faltavam, e agradeci ter feito o curso de escalada. Um amigo me chamou para fazer o curso porque não queria ir sozinho. Acabei topando porque gosto de aprender coisas novas. Nunca se sabe quando serão úteis. Graças a isso pude escalar com relativa facilidade e velocidade, pois sabia me agarrar em qualquer ranhura na rocha e como distribuir o peso para obter equilíbrio. As pernas já estavam falhando em relação às ordens do cérebro quando cheguei ao topo. Os últimos 50 metros foram extenuantes.

De repente o sol se foi, o tempo fechou e passamos a fazer parte do Mundo Perdido

Mas, como valeu a pena! Parecia que eu acabara de desembarcar de uma nave espacial em outro planeta. Ambiente pra lá de hostil. Imagine entrar dentro de uma nuvem onde está havendo uma tempestade gelada com ventania. Adicione a isso a falta de oxigênio. É mais ou menos isso. Fiz uma oração de agradecimento e pedi ao "Senhor do Ventos, Kukenan" que nos poupasse um pouco. 

Cheguei ao paredão e nem sei onde estou, 
não enxergo mais que dois metros à frente

Não sei se foi isso ou apenas uma feliz coincidência, mas o tempo melhorou um pouco e até o sol deu as caras. As pedras se aqueceram enquanto lanchávamos e aguardávamos o resto do grupo. Melão e goiabada "roraimera". Nosso guia Tirso dizia que tudo o que comíamos era "roraimero". Um dos sujeitos mais engraçados que já conheci. 

Estou quase lá ...

Após comer, escolhi um vão na rocha e deitei com as pernas para cima. Estava aquecido e mais ou menos abrigado do vento gelado. Logo outros me seguiram. Deu até para tirar um cochilo. Uma parte do grupo chegou quando já nos aprontávamos para partir em direção ao acampamento final. A fome apertava meu estômago e ainda tínhamos alguns quilômetros para andar. 

Chegamos sãos e salvos ao topo do Monte Roraima

O topo do Monte Roraima tem 30 quilômetros quadrados, fauna e flora únicas no planeta, cachoeiras enormes, lagos e é onde vários rios nascem. Toda a água que desce do Roraima vem unicamente da chuva incessante. O monte é parecido com uma esponja, cheio de cavernas e nunca secou. É um fenômeno da natureza e inabitável para os seres humanos. Só dá mesmo para visitar.

Uma pequena amostra da flora local

O almoço e o jantar vieram nos confortar. O problema é que o vento e o frio nos permitiam comer muito pouca comida quente. Comi tão rápido que engasguei. Nunca bebi tanta água e suco. Um dos grandes perigos do Roraima é justamente não percebemos a desidratação por causa da umidade constante. Atento a isso, enchia sempre o meu cantil, mas ainda assim sentia uma sede enorme. 

Almoço: Pasta Roraimera : )))

Nossas barracas estavam montadas na entrada de uma grande caverna chamada "Hotel Guacharo". Segundo o guia Marcelo, Guacharo é o nome de um pássaro que vive naquelas cavernas junto com escorpiões e tarântulas enormes. O guia Marcelo sequer tinha uma barraca. Dormia apenas com um saco de dormir estendido no chão.

Pode parecer estranho, mas ficamos bem abrigados aqui

Perguntei a ele sobre as tarântulas e ele me respondeu apenas que as comia fritas. Caímos na gargalhada. Tudo o que vi por lá foram uns grilos gigantescos que nadavam sob a água. Fui dormir sem tomar banho. Estava frio demais e eu cansado demais. Teríamos todo o dia seguinte para explorar o topo do Roraima. 

Rosinha enchia o prato, mas me dava a metade


Não é uma cozinha planejada Kitchens, mas alimentou muito bem a todos nós
e na hora certa. Uma façanha digna dos maiores elogios

Amanhã conto mais.