segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

O Voo, o heroi e o vício

Ricardo Icassatti Hermano

A indústria do cinema americano é, de longe, a mais avançada do mundo. O mesmo nível de especialização que vemos, por exemplo, na medicina e na eletrônica, está presente no cinema. São especialistas em iluminação, edição, som, trilha sonora, escolha de elenco e de locações, ensaios etc. Até chegar ao editor de trailers, um especialista em nos vender o filme.

Muitas vezes, assistimos um trailer que nos impressiona a ponto de estarmos na fila da primeira sessão do primeiro dia. Mas, quando vemos o filme todo, ficamos desapontados. Os responsáveis por isso são os especialistas na edição de trailers. Nos EUA existem diversas empresas que só fazem trailers e as melhores estão ganhando muito dinheiro.

Ontem fui assistir um filme cujo trailer não apenas me empolgou, mas me enganou completamente sobre o enredo. O filme se chama O Voo (Flight). Habilmente, o trailer me levou a acreditar que o enredo se baseava na investigação de um acidente aéreo em que, graças à descomunal habilidade do comandante Whip Whitaker, interpretado por Denzel Washington, a maioria dos passageiros saiu com vida.

Cartaz do filme

Na verdade, o filme é sobre alcoolismo, uma doença, de acordo com a medicina, ou um vício, que avança assustadoramente em todo o mundo junto com outras doenças e vícios. Existe uma droga pior que a outra. Sinceramente, para mim são todas iguais. Todas destroem quem as usa e causam uma devastação incomensurável entre as pessoas que convivem com o viciado. 

Denzel Washington fazendo a famosa "caminhada Denzel Washington"

Como em qualquer vício, a característica mais terrível é a negação da sua existência por parte do usuário. Apesar de todos os esforços, são raros aqueles que reconhecem o problema e buscam ajuda. Esse passo é vital para se livrar da dependência. Afinal, toda e qualquer mudança em nossas vidas depende exclusivamente da nossa vontade de mudar. 

Você sabe que está encrencado quando te convidam
para almoçar e tem um advogado na mesa ...

Talvez pelo de eu ter baixíssima tolerância física a qualquer tipo de droga, especialmente álcool, sempre me intrigou como alguém consegue ingerir quantidades gigantescas de bebida alcoólica e não passar mal. A minha intolerância é tão severa que apenas o cheiro do álcool já me faz desistir da empreitada. Mais de uma lata de cerveja e eu passo mal mesmo. 

Mais um pouco de Denzel

Mas, voltemos ao filme. A direção é de Robert Zemeckis, um craque. O roteiro é bom, mas faz aquela velha concessão aos produtores medrosos de Hollywood e abre as pernas para um final, digamos, moralista. Com direito a citações bíblicas e tudo o mais. Para os americanos, o pior pecado é mentir. Mas, pior que isso ainda é ser pego mentindo. O filme mostra isso e como a vida pode ficar melhor e com menos culpa, sem a mentira. 

Para quem não sabe, essa é a Kelly ...

Um bom retorno às telas é da atriz Kelly Reilly e seus olhos verdes, uma ruiva de sonho. Daquelas que não nos algemam na cama e não batem na gente ... Hahahahahahaha!!! Como referência, ela fez a noiva do Watson, na  recente série de filmes Sherlock Holmes. E a moça de fala mansa é realmente uma beleza : )

Nem os olhos verdes da Kelly conseguiram convencer
o comandante a largar a garrafa

A história começa com um acidente aéreo provocado por falha na manutenção da aeronave. O comandante Whip consegue realizar uma manobra impensável, aterrissa o avião e salva quase todos os passageiros. Vira heroi instantâneo, claro. O problema é que ele é  alcoólatra e, no momento do acidente, estava bêbado. E aqui é que o filme poderia ter ficado realmente bom se abordasse a questão do heroísmo versus alcoolismo. Poderia haver redenção na mentira?

Conheci um piloto que, só de onda, fez esse giro no ar com um
Boeing da Transbrasil. Foi demitido em seguida ...

O sindicato dos aeronautas contrata um advogado especialista em livrar clientes da cadeia. O advogado é bom, pois consegue logo anular o exame toxicológico do piloto como prova na investigação do acidente. Mas, a absolvição total depende de uma mentira, que manchará o nome e a reputação de outra pessoa. Talvez fosse o caso de explorar mais essa situação e seus desdobramentos, fazer a audiência refletir mais em vez de entregar um prato feito, moralmente falando. Talvez fosse o caso do comandante sair ileso mentindo e vermos as consequências pessoais disso.

John Goodman faz o traficante que mantém o comandante em pé

Em todo caso, o filme vale o ingresso. Até pelos olhos verdes da Kelly, já valeria : ) O Café & Conversa assistiu, gostou e deu cotação três canecas. Veja o trailer:


2 comentários:

Raquel Ramos disse...

Gosto muito de cinema! Este filme vai para uma extensa lista que estou protelando para ver. Gostei dos comentários, inclusive sobre Kelly, apesar de considerar que a escolha de Denzel Washington também não sai por menos, haja vista o homenzarrão que é (Em "Dia de treinamento", ele realmente está muito bem - em todos os sentidos!). Enfim, voltando ao que interessa, tenho me cansado dos filmes estadunidenses por serem sensacionalistas e pouco originais. Sempre enunciam algo extraordinário, desprezando o corriqueiro e humano, ao estilo "American Way of Life", mesmo assim, neste caso, há de se considerar que são os produtores de Forest Gump e Náufrago, os quais são muito bons, e daí, merece crédito e a dedicação de algumas horas a um cinéfilo.

Café & Conversa disse...

Raquel,

O filme não é espetacular, mas vale o ingresso. E Denzel Washington só atua mesmo quando quer. Ele entrou naquela área cinzenta em que está o Al Pacino, por exemplo. A área dos canastrões ... Mas, o filme se salva por outras coisas, como a Kelly : )

Abraço!