sexta-feira, 15 de julho de 2011

Morte na Esplanada - Capítulo 13


Ricardo Icassatti Hermano

O bicho pegou! A coisa ficou séria. Assassinos profissionais estão tentando matar o delegado Alexandre Dantas e sua equipe, os chamados "Intocáveis". Eles estão encurralados numa cafeteria famosa e várias pessoas estão em perigo. Conseguirão escapar dessa? E a jornalista Mércia Trancoso? E o diretor Miguel Brochado? Qual será a responsabilidade dos dois nesse atentado violento?

A Blog-Novela entra em nova fase. Aqui não tem mais espaço para brincadeira e mimimi. Essa é a investigação mais difícil da vida de Alexandre. Ele terá as condições necessárias para desvendar um crime com tantas implicações políticas? E vocês? Querem o que? Qual é a sua opinião? Deixe seu comentário no final do capítulo e ajude a encaminhar essa história.

Agora, como é do nosso costume, prepare-se para atravessar a madrugada com os perigos, tramas, aventuras e fortes emoções da sua Blog-Novela preferida. Esquente a sua bebida, vista seu pijama e as meias. Enfie-se debaixo do edredon, ligue o som do computador para ouvir a trilha sonora e estremeça com "Morte na Esplanada"...




Morte na Esplanada

Capítulo 13

Os tiros pipocavam pelas paredes e as balas estouravam tudo o que encontravam pela frente. Era apenas uma questão de tempo para que os atiradores resolvessem invadir a cafeteria Grenat Cafés Especiais e liquidassem todos, policiais e funcionários.

Os atiradores pareciam saber o que faziam. Um começou a atirar antes do outro. Assim, enquanto um parava para recarregar, o outro seguia atirando. Mas, o intervalo no fogo cruzado permitia que Alexandre e os demais reagissem com alguns tiros a esmo, sem nenhuma eficácia. Estavam tentando se orientar em meio ao caos.

Na verdade, os tiros eram mais para manter os atiradores do lado de fora. Eles não invadiriam de qualquer maneira sabendo que tinha gente armada dentro da cafeteria. Talvez nem fosse a intenção deles invadir, mas como saber naquela altura dos acontecimentos? Cada policial só conseguia pensar naquele momento em sua arma pesada predileta. Com elas, aquele tiroteio seria bem diferente.

Haviam se passado alguns minutos, quando de repente os tiros cessaram. Meio surdos com a artilharia ininterrupta, os policiais não ouviram o gemido esquisito e o som parecido com um côco atirado ao chão, que vieram da porta de entrada. Na lateral, onde estava o segundo atirador, outro som esquisito também não chegou a ser ouvido. Os policiais se prepararam para a invasão.

Foram momentos aflitivos de espera. Em seguida, ouviram vozes vindas de fora.

- Tem alguém ferido aí dentro?

- Cuidado! Pode ser um truque dos atiradores - alertou Rômulo.

- Acho que conheço essa voz - disse Alexandre.

- Tem alguém ferido aí dentro? - insistiu a voz.

- Está parecendo a voz de um daqueles jornalistas do Café & Conversa ...

- Delegado Alexandre! Somos nós, Romoaldo e Kassatti.

- São eles mesmo. Um dos nossos está levemente ferido. Não sabemos do pessoal aqui da cafeteria.

O choro irrompeu atrás do balcão.

- Nós vamos entrar OK? Não atirem. Os atiradores já foram dominados. Podem ficar tranquilos.

Kassatti e Romoaldo entraram na cafeteria completamente destruída. Era um cenário de guerra. Paredes furadas, móveis depedaçados, vidros estilhaçados, comida e bebida espalhadas pelo chão. Não se dirigiram aos policiais. Procuravam por alguém específico. Ao olhar por cima do balcão, viram algumas funcionárias e as proprietárias Luciana e Gabriela deitadas no chão. Todas estavam apavoradas e choravam muito.

Assim que viram a dupla do Café & Conversa, as funcionárias e as proprietárias se levantaram e saíram detrás do balcão. Gabriela correu e se abraçou a Romoaldo, chorando copiosamente. Ele estava estreando seu terno risca de giz e não conseguia esconder a contrariedade por tê-lo manchado com sangue. Também não conseguia esconder sua alegria por ter a moça em seus braços.

Alexandre e Gabriel ajudavam Pablo, que estava ferido, a se levantar. Colocaram uma cadeira em pé para que ele pudesse sentar. Rômulo foi para o lado de fora da cafeteria verificar o que havia acontecido. Encontrou os dois atiradores deitados no chão. Estavam mortos. Um deles tinha uma caneta BIC enfiada na têmpora. O outro tinha uma perna partida ao meio e um pequeno canivete enterrado no pescoço. Ainda esguichava sangue pela carótida seccionada.

- Tudo bem aí, delegado? - perguntou Kassatti.

- Está ... agora está tudo bem. O ferimento do Pablo é superficial, mas tiro de AR 15 sempre causa algum estrago. Ainda está sangrando um pouco.

- Como está esse ferimento Pablo?

- Já fiz uma atadura improvisada aqui, mas está OK. Amanhã deve doer um bocado. Por enquanto, a adrenalina está segurando a dor.

- Aperte bem aí para estancar o sangramento. Já chamaram a polícia?

- Foi tudo tão rápido que nem me ocorreu de pegar o celular e pedir ajuda. Eles não paravam de atirar e a nossa prioridade era tentar se defender da melhor maneira possível.

- Já liguei para a Superintendência. Está todo mundo vindo aí. Até o Dr. Hamilton - disse Gabriel.

- Kassatti, o que aconteceu lá fora? - perguntou Rômulo, que havia acabado de retornar.

- Tivemos que tomar uma providência ... vocês entendem, né? Estávamos vindo para cá, depois de estacionarmos nossos carros lá na quadra. Chegamos e vimos esses caras atirando feito loucos. Na hora, só nos preocupamos com a segurança das meninas, especialmente a Gabriela, claro (risos). Ela quebrou o pulso recentemente (mais risos). E a mãe dela também, a Luciana. Depois, pela ordem de importância, é aqui que compramos nosso café, é aqui que nos reunimos para escolher as pautas da semana. Ficamos desesperados. Esses caras não sabiam com quem estavam mexendo. Assim, o Romoaldo escolheu um atirador e eu fiquei com o outro. Eles estavam de costas para nós e o barulho dos tiros não deixou que ouvissem a gente chegando. Dei uma rasteira, na verdade um chute lateral, nas pernas do cara quando estava recarregando a arma. Minhas botas são especialmente fabricadas para isso. A perna dele partiu no meio e ele rodou no ar para a direita. Ainda no ar, enterrei meu canivete no pescoço dele, bem na jugular. Minha mira está até boa. Quando ele caiu, ainda bateu a cabeça no chão com tanta força que, pelo barulho, deve ter partido o crânio. O sangue jorrava a um metro de altura. Saí de perto para nem sentir o cheiro. Não vi como o Romoaldo fez com o dele. Como foi Romoaldo?

- Bem, eu não tinha um canivete nem o chute do Kassatti. Daí, peguei a minha caneta BIC, com tinta preta, e enfiei na têmpora do sujeito. Enfiei até o talo de tanta raiva que fiquei. O sujeito nem gritou, mas a cabeça dele fez um barulho de pneu esvaziando. Se eles tivessem machucado a Gabriela, eu era capaz de voltar lá e matar o sujeito de novo (risos).

Alexandre e sua equipe estavam boquiabertos. Os dois jornalistas tinham matado dois assassinos profissionais com facilidade porque estavam preocupados com a segurança das funcionárias da cafeteria e das suas proprietárias, além do café que bebiam ali. E ainda riam.

- Como assim? Vocês chegaram e mataram os caras, assim sem mais nem menos?

- Acho que demos sorte e eles realmente nos irritaram. Além disso, delegado, você não é o único que treina artes marciais por aqui ... Mas, alguém precisava fazer alguma coisa. Todo mundo correu e se escondeu em algum lugar. Sobrou pra gente. Agora, ficamos sem ter onde tomar café, por culpa desses vagabundos ...

- Não se preocupem - se apressou Gabriela, enxugando as últimas lágrimas -, até a próxima semana estaremos de pé novamente. Não nas condições ideais, mas vocês não ficam sem o nosso café de jeito nenhum. Isso eu garanto!

- A única coisa que não sei se tem jeito é o meu terno novo de risca de giz - lamentou Romoaldo.

- Acho que uma boa lavanderia tira essas manchas - disse Gabriela, tentando remover uma mancha com um guardanapo molhado com água.

Romoaldo sorriu. Em seguida, a barulheira de sirenes das viaturas policiais e ambulâncias interrompeu a conversa. Policiais entraram correndo na cafeteria com armas em punho, como num desses filmes baratos de ação. O povo morbidamente curioso começava a se aglomerar na rua, tirando fotos e filmando com seus telefones celulares. Logo mais, o YouTube estaria cheio de vídeos tremidos e depoimentos idiotas repletos de risadinhas nervosas e palavrões do tipo "carái véio". Alexandre gritou:

- Acalma esse pessoal aí! O tiroteio já acabou e os bandidos são aqueles dois mortos lá fora. Guardem essas armas, porra! Antes que algum nervoso atire na gente. Aqui dentro só tem um ferido. Cadê o Hamiltão? Afasta essa gente daqui, porra!

- Ôpa, tô aqui! Quem tá ferido? - gritou o Dr. Hamilton, acompanhado de outros paramédicos.

- Aqui, o Pablo. Cuida dele Hamiltão ... e pede para alguém atender as moças. Elas estão bem nervosas.

- Deixa comigo! Vocês, vão lá cuidar das moças. E aí Pablo? Vamos ver isso aqui. Hummmm ... que belo ferimento de bala. AR 15 faz um estrago mesmo, né? - Hamilton sorriu daquele jeito que os médicos legistas sorriem e deixam todo mundo grilado.

- Delegado, nós vamos ficar muito encrencados por causa dos caras lá fora? - perguntou Romoaldo.

- Vai ter um processo, mas não se preocupem. Vocês salvaram as nossas vidas. Isso é legítima defesa. Só tem a chatice da investigação, burocracia jurídica, essas coisas, vocês entendem, né? E o meu relatório vai deixar bem clara a participação de vocês.

- Eu sei, mas é bom garantir ...

- Uma coisa me ocorreu agora ... preciso ligar para a Lígia. Ela pode estar em perigo também.

No dia seguinte, o diretor Miguel Brochado convocou Alexandre para uma reunião. O delegado estava furioso com o "vazamento" das informações que o colocaram na primeira página do jornal Notícias do Brasil. Aquilo levou os assassinos até a cafeteria. Ele sabia que a jornalista Mércia Trancoso havia conseguido as informações com o diretor e se algum integrante da sua equipe tivesse morrido no atentado, Brochado seria o próximo a conhecer a mesa de autópsia do Dr. Hamilton.

Ao entrar no gabinete do diretor, Alexandre viu o circo montado com todos os palhaços. Estava lá toda a cadeia hierárquica que vinha do diretor até ele. Um monte de "chefes" e "sub-chefes" lambedores de botas e sem espinha dorsal cuja única preocupação era manter o cargo que ocupavam a qualquer custo. Logo percebeu qual era o "tema" da reunião. Alguém deveria ter sugerido colocar o "guizo" no pescoço do gato. Ainda não tinham escolhido qual dos ratos faria o serviço. Nenhum deles queria a missão.

Alexandre ouviu toda aquela tertúlia efeminada, aquela prosopopeia sem graça, aquela verborragia pusilânime e própria de homens emasculados. Cada um falou o quanto quis e quando um não conseguia se explicar, o seguinte tentava explicar o que o outro havia dito. O resultado era mais pegajoso e nauseabundo ainda. "O fulano quis dizer que ... ou, está tentando dizer que ...". Quando seu saco se encheu, o delegado falou.

- Não sei porque vocês me chamaram para essa palhaçada. Porque isso aqui não é uma reunião de trabalho, é uma palhaçada. É isso o que vocês fazem enquanto estamos arriscando nossas vidas lá na rua? Se reunem para esse espetáculo bizarro, vexaminoso? Vocês deveriam ter mais vergonha na cara, fazer uma reposição hormonal, sei lá. Um pouco de testosterona lhes faria muito bem.

- Não, não, isso aqui é uma reunião de trabalho sim e ...

- ... e porra nenhuma! Você, Brochado, vazou as informações para aquela jornalista. Por causa disso, quase morremos ontem. Graças a dois sujeitos que nos ajudaram, não estamos agora no necrotério cheios de balas.

- Mas ...

- Mas é o caralho! A próxima vez que você aprontar outra babaquice dessas, venho resolver pessoalmente com você.

- A hora que você quiser, delegado, a hora que você quiser. Acha que tenho medo de você?

- Não acho não. Aliás, até conto com isso. A sua valentia é lendária por aqui ... Agora, se me dão licença, tenho mais o que fazer e sequer gosto de circo. Minha equipe precisa de mim. Passar bem.

Alexandre sequer olhou para trás quando saiu daquele antro de vermes. Tinha muito trabalho ainda pela frente. Ele havia falado com Lígia e alertado para o perigo que poderia estar correndo. Ela resolveu tirar umas longas férias e foi para uma cabana nos Alpes suíços que havia comprado há alguns anos para montar o seu refúgio secreto e o lugar onde viveria na velhice. Ninguém sabia daquele lugar. O delegado pediu que não revelasse nem mesmo para ele.

Reunido com a equipe, todos quiseram saber como havia sido a reunião. Alexandre relatou o que ouviu e resumiu tudo de maneira curta e grossa.

- Vamos fazer um bolão para ver qual daqueles babacas vai aderir ao crossdressing primeiro (gargalhada geral).

Dias depois, o delegado viu que a investigação estava chegando a um beco sem saída. Além disso, o atentado havia tomado muito do seu tempo com providências burocráticas da investigação. Teve que conseguir outra pistola e sempre trazia no carro uma sub metralhadora UZI SMG. Todos os integrantes da equipe faziam o mesmo com seu armamento predileto.

Alexandre não pestanejou. Ligou para a dupla do Café & Conversa em busca de ajuda, mais uma vez. Marcaram o encontro na Grenat Cafés Especiais, que aos poucos se recuperava da destruição. As meninas eram realmente corajosas e não se deixaram intimidar pelo ocorrido. Felizmente, nenhuma delas se feriu.

Foi servido um fabuloso Geisha, coado na French Press. Os grãos foram trazidos pela Luciana quando esteve no Campeonato Mundial de Barismo, na Colômbia. O café fôra cultivado no Valle del Cauca, a uma altitude que varia de 1,5 mil a 1,95 mil metros em plena Cordilheira dos Andes. Os grãos foram torrados pela empresa Café Palo Alto S/A, sob a responsabilidade da talentosíssima Mestre de Torra, Rubiela Alvarez. O suave e marcante aroma de jasmin surpreendeu a todos.

- Meus caros, preciso da ajuda de vocês. De novo ...

- Estamos ao seu dispor, delegado. Em que podemos ajudá-lo? - disse Kassatti.

- Primeiro, quero saber onde eu compro uma bota igual a sua (risos).

- Comprei pela internet numa loja americana. Anote aí o endereço ...

- Segundo, onde vocês aprenderam tanta coisa?

- Eu tive uma infância difícil (gargalhada geral). A desculpa do Romoaldo eu não sei qual é (mais gargalhadas).

- É mais ou menos por aí. Junte a isso, muitas viagens pelo mundo, muita ralação, muitas amizades e inimizades. Somos sobreviventes profissionais, delegado. Mas, qual é o seu problema? - perguntou Romoaldo.

- O meu problema é que a investigação sobre a morte da ministra está enfrentando dificuldades. Chegamos a um ponto delicado e ... sem saída.

- Alexandre, como dissemos quando nos conhecemos, aqui mesmo na Grenat, é preciso nunca perder a trilha do dinheiro. Toda essa confusão foi financiada de alguma maneira e o dinheiro é a trilha mais segura a perseguir. Nela, você vai encontrar todos os personagens principais dessa trama - disse Romoaldo.

- Mas, onde acho essa trilha?

- Você terá que voltar ao passado, lá onde tudo começou. Temos um amigo que pode ajudá-lo nessa busca. Ele foi guerrilheiro em El Salvador e deve ter conhecido a ministra Sueli Sandoval. Na época, todos os movimentos revolucionários latino americanos tinham um só financiador: Cuba. Lá também era o centro de treinamento de todos os guerrilheiros. Todos se conheciam. Depois, os países que eram conquistados por esses movimentos, passaram a ajudar também. Se tem alguém que conhece bem esse bastidor, é o nosso amigo - disse Kassatti.

♦♦♦

Êpa! Mais um personagem chega na trama. Vai complicar ou vai facilitar? Um ex-guerrilheiro? Alguém que conhece o passado de Sueli Sandoval? E essa dupla do Café & Conversa? Quem são esses caras realmente? Será que são apenas jornalistas? A trama esquentou de vez! Traga a sua contribuição também, deixando na área reservada a COMENTÁRIOS a sua opinião, sugestão, crítica, dica ou até um elogio : ) Aguardamos ansiosamente.

E como nos deseja o Romoaldo todas as manhãs, de segunda a sexta-feira, em nosso quadro na CBN Recife e, em seguida, aqui no nosso podcast: Um abraço e bom café!

2 comentários:

Anônimo disse...

Carái Véi!
Foi irresistível. Tive que escrever esse tal de "carái véi" porque nunca na vida me ocorreu dizer ou escrever essa expressão. Dito isso, quero realmente parabenizar o autor.
A trama não foi pelo caminho fácil. Quem poderia imaginar um jornalista matando um atirador profissional com uma caneta BIC. E, preta! É o que chamo de criatividade. Sem contar o plano simbólico. Ou seja, a única arma do jornalista é sua pena (ou um canivete, para quebrar a monotonia).
Acho que o ex-guerrilheiro pode surpreender.Mas Cuba só treinava. Dinheiro que é bom, não tinha tanta. Acho mais fácil seguir pelo mundo árabe.
Sueli Sandoval não foi morta pelo passado. É isso que os interessados querem que pensemos. Foi morta por alguma transação internacional de alto vulto. Muuuita grana envolvida. De país rico.
Memélia

Telma D. Monteiro disse...

Bem, só tenho a comentar que esse capítulo tem cenas de 007 (nos bons tempos). Kassati ágil no canivete e na bota "especial" é personagem ou de verdade?
Que virada na trama! Essa coisa de ex-guerrilheiro treinado em Cuba não é muito atual. Sugiro alguém treinado na Venezuela ou das Farc.
Mas depois do que passei sábado, minha sugestão tá mais para um incendiário!
Parabéns, amigo, pela trama envolvente.
Telma