sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Expedição ao Monte Roraima - Parte 4

Ricardo Icassatti Hermano

Pensei que na noite/madrugada em que cheguei ao topo do Monte Roraima, a minha alma retornaria da mesma maneira como deixou o meu corpo. Mas, nada aconteceu nesse sentido e nem fiquei preocupado. Ela certamente estava se divertindo. O que tem de ser, será. A noite começou com chuva, frio e vento. Na madrugada piorou muito. Como estávamos instalados mais para dentro da caverna, sequer ouvimos a ventania. Mas, quem ficou mais para fora sofreu um bocado. 

Por onde andará minha alma?

O grupo que havia chegado e pernoitado no acampamento base passou apertado a noite. Barracas voaram e o rancho deles ficou semi destruído com a ventania, conforme soubemos por eles mesmos quando chegaram ao Hotel Guacharo no meio da tarde.

Viver no meio das nuvens é ter o melhor nebulizador do mundo

O nosso dia começou nublado e frio. Aliás, frio é uma constante no topo, pois estamos a mais de 2,7 mil metros de altitude. A adaptação ao ar rarefeito foi rápida. Já não sentíamos o peso de respirar do primeiro dia. Assim, enquanto uma pequena e disposta parte do grupo se dirigiu ao marco das três fronteiras, Brasil, Venezuela e Guiana, para fazer o chamado "passeio longo" com 12 quilômetros para ir e 12 km para voltar, o resto - eu incluído -  foi para o "passeio curto", uns 10 km no total. 

Eu vou, eu vou, explorar o Roraima eu vou ...

Não me arrependi. O passeio curto nos levou a vários lugares diferentes, como as jazidas de cristal, onde contou o nosso guia já foram extraídos diamantes. Hoje é proibido tirar qualquer coisa lá de cima ou sequer do Parque Nacional Canaima. Também conhecemos cachoeiras e as famosas Jacuzzis, uma série de banheiras naturalmente escavadas na rocha cheias de água transparente e geladíssima. Apenas um integrante do nosso grupo teve coragem de entrar.

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Essas são as Jacuzzis

Também tivemos aula sobre a flora e a fauna únicas ali no topo. Percorremos o famoso local da queda de um helicóptero que levava a equipe do programa Globo Ecologia. Danton Melo, irmão do ator, dublador, roteirista, produtor e diretor Selton Melo, era o apresentador do programa e quase morreu no acidente. Um local chamado Jardim do Éden ficou marcado. Segundo nosso guia, Adão e Eva se banhavam ali. Nosso almoço foi servido no meio do caminho. Não sei como fizeram aquilo, mas chegou ainda quente. 

Alguns exemplares da flora do Roraima 

Insetos e pássaros se alimentam dessas flores 

Uma espécie de pássaro faz uma cirurgia nessa flor para comer o néctar 

Mais um belo exemplar 

Essas são carnívoras ...

Ao voltarmos para o Hotel, mais um grupo havia chegado. Era o que havia sofrido com a tempestade da noite anterior. Era um grupo barulhento e exigente. Não queira dormir na caverna e logo surgiram uns claustrofóbicos. Como eu estava muito longe daquela vibe, fui tomar meu banho em outra caverna onde havia uma cachoeira interna. Não encontrei o caminho que levava à cachoeira porque minha lanterna é muito fraca. Tomei o banho, junto com o resto do grupo, numa pequena banheira que fica logo na entrada.

Rosinha incorporou Gene Kelly e fez seu famoso cover de Singin' in the Rain

A água estava cheia de grilos gigantes que nadam debaixo d'água. Espantei os bichos para que as meninas não vissem. Seria um auê danado. Uma delas já estava sentindo os sintomas da claustrofobia trazida pelo novo grupo, o que levou a uma ciranda de barracas até que ela voltasse para o lugar onde estava inicialmente. Um dos integrantes do novo grupo não conseguiu ficar dentro da caverna e também teve que dormir na beirada. Ele desistiu do resto da viagem e pediu para descer junto com o nosso grupo no dia seguinte.

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O guia Marcelo nos contou o caso de um integrante de outro grupo que estancou no acampamento base e não houve meio de convencê-lo a subir o Roraima. Como não seria possível retornar, deixaram comida suficiente para ele e o pegaram na volta. Não é apenas uma questão de forma física,. Os índios dizem que quem não estiver bem de cabeça e de alma, não conseguirá subir e descer a montanha. 

Eram os deuses astronautas? Alienígenas no Mundo Perdido ...

O jantar foi animado. Estávamos felizes por estar ali, por ter concluído aquela etapa inteiros. O dia havia transcorrido com tranquilidade e sorrisos. Até banho a gente tomou. A chuva deu uma trégua e comi como um cachorro vira-lata faminto. Ainda bem que Rosinha não come muito e me dá metade do prato. E eu ainda repito : ) Mas, como já disse, nada dessas calorias ficou. Perdi bastante peso, confirmado pelos buracos do cinto. Após uma boa conversa com o pessoal, o sono me pegou.

Amanhã conto mais.

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